quarta-feira, 29 de abril de 2026

#17 - 40% Foda/Maneiríssimo comemora o centésimo lançamento e anuncia seu fim

Fundadores Gabriel Guerra e Lucas de Paiva falam sobre o mundo e o futuro e relembram histórias dos 13 anos do folclórico selo carioca

Há meses tento entender por que se tornou tão difícil andar nas ruas do Rio em dias de chuva moderada e até fraca. Poças que se formam nas calçadas irregulares e encharcam sapato e meia mesmo quando se evita andar em linha reta, tentando pular de ilha em ilha de secura. As inundações dos bueiros. Quinze minutos de chuva fraca ininterrupta já expõem a incompetência das calçadas em receber uma simples precipitação, e não muitos minutos depois um bueiro ou outro começa a cuspir água que não aguentou armazenar. Não sei se essa impressão de piora é uma distorção nostálgica da minha mente, mas tenho a sincera lembrança de que meias e sapatos encharcados, via de regra, se limitavam a ocasiões de temporal. A piora se deu, compreendi, pela falta de uma limpeza rotineira das redes subterrâneas, que com isso passam a ter menor capacidade de drenar a chuva quando chega.

Não digo isso para comparar o lendário 40% Foda/Maneiríssimo a algo ruim, porque a analogia não funciona. Por mais que a fachada autodepreciativa do selo não beneficie uma primeira impressão, se for possível comparar a obra deles a algum tipo de galeria estaremos falando de galerias de arte, não galerias pluviais. Mas se em algum momento as músicas do 40% chegaram até você, isso teve uma dinâmica que lembra o mecanismo do transbordamento de água: foi se formando ao longo dos anos, consistentemente, um movimento nas galerias subterrâneas que os olhares menos atentos não perceberam. Esses caras trabalharam em silêncio por muito tempo, acumulando e acumulando produções no que se chama de “underground”, quase desinteressados se alguém ia escutar ou não (felizmente, muita gente escutou). O resultado, acredite, é um acervo belíssimo de 99 discos autorais, para nossa sorte armazenados na página do Bandcamp, todos ricos em ideias musicais que nasceram de pesquisa séria, da intenção de experimentar de fato com possibilidades menos convencionais na música. Minha identificação com essa filosofia foi imediata, como deve imaginar quem leu um ou dois textos do blog, porque o zelo com a substância da arte, mais do que qualquer área adjacente ou auxiliar, sempre foi a única coisa que me gerou admiração em qualquer artista. Conversei com Gabriel Guerra e Lucas de Paiva, que iniciaram o selo em 2013, sobre momentos marcantes dessa trajetória, desde Bruce Hornsby até Michel Temer.

Música Ambiente RJ: Obviamente nem tudo que vocês fazem se enquadraria num ambient mais estrito. Com que outros gêneros vizinhos vocês diriam que o acervo flerta?

Lucas de Paiva: Sempre foi uma bagunça, né? Até quando a gente fez os vinis a gente recebeu muita mensagem dos caras das lojas falando: “não sei onde colocar esses discos”. 

Gabriel Guerra: Com exceção, talvez, do meu, nenhum era enquadrável na categoria discos pra discotecar, também eram estranhos demais pra ser boogie, e não entravam na de ambiente porque, sei lá, tinham batidas. Sempre foi essa mistura, mas meio que tem escolas dentro do selo. Se você pegar o Thiago Rebello, o Relevo Espacial, eles fazem parte do mesmo grupo, por outro lado as coisas do Renatinho [Africanoise] fazem um paralelo com as do Finga, que são algo mais soturno, talvez? A ideia era ter essas ramificações dentro do selo. O Renatinho é um bom exemplo porque tocar com ele é uma das coisas mais absurdas do mundo. Ele pensa em tempo 16, é imparável. Você pensa em tocar “tan” e ele já tá no “tantantantan” totalmente sincopado, swingando quase fora da batida, de tão energético que é. E ele acredita que tá fazendo algo super normal. Foi esse tipo de gente que atraiu a gente, que dentro da própria cabeça tá fazendo algo banal, mas na verdade não, tem várias idiossincrasias nesse som que você tá fazendo.

LP: Acho que as pessoas que mais faziam as coisas delas pra se encaixar no que a gente fazia eram as que menos fazia sentido ter, no fundo. Então essa coisa de não se limitar é algo que realmente faz parte da gente.

MARJ: Eu lembro que o Guerra uma vez falou de ter sido influenciado pela música de lounge. Como se deu isso?

GG: Eram as coisas que minha mãe ouvia, e eu gostava, mas ao mesmo tempo sempre pensei: “não quero que seja só música lounge”. Eu lembro claramente da minha mãe ter um disco do St. Germain, e de pensar em como podia dar uma entortada naquilo, porque achava um pouco frufru demais. Mas isso não é só com esse estilo, qualquer um que ficasse muito óbvio que tinha um estilo específico eu tentava variar. 

MARJ: Bom, tem esse processo que eu sei que o Guerra segue porque já falou sobre isso, mas aproveito até para perguntar ao Lucas se isso se estende também ao restante do selo, que é o de controlar todas as pontas da produção, quer dizer, desde o começo até a distribuição.

LP: Isso é uma coisa mais do Guerra. Ele é um cara que não precisa de plataforma, né, a ideia do 40% é ser uma plataforma mas acho que ele precisava de algo que permitisse a ele lançar sem passar por ninguém. Ele lança muita coisa, é incrível. Todo mundo na cena do Rio chega me dizendo: “cara, não consigo fazer que nem o Guerra”. Ele conseguiu cortar essa barreira e o tempo entre o fazer música e o lançar música. A ideia do 40% era muito isso, você faz e lança na hora, não tem muito essa coisa de criar uma divulgação, esperar o momento. É um exercício quase zen-budista, de vai, faz e ninguém ouve, e tá tudo bem, vai, faz de novo, e ninguém vai ouvir mas continua fazendo. Todo mundo trava por muito tempo com alguma música, eu também sou assim, e a gente pensa: “como eu vou me livrar dessa trava?”. Faz e quando tiver mais ou menos pronto joga pro mundo. Com todo mundo que eu falo, essa é a batalha mais difícil.

GG: E uma vez que você ultrapassa um pouco essa barreira, vira algo meio fácil. O caso do 40% sempre foi muito de experimentar no sentido da palavra mesmo. “Eu quero testar essa técnica aqui, e posso fazer 4, 5 faixas testando essa técnica”. Só a pequena ideia, “eu vou tocar esse botão aqui, que dá um efeito legal, e essa é a tônica do disco”. É aquela coisa, você pode tirar a foto de um objeto, mas o ângulo muda totalmente a perspectiva. É uma coisa muito engessada no interior dos produtores, e eu sinto que pro 40% e pra mim é quase um dever cívico mostrar que não precisa ser assim.

MARJ: Tem algo virtuosístico em só fazer, né?

GG: Sim, e eu acho que as pessoas percebem isso, às vezes eu ouço o som de uma pessoa e nem gosto tanto, mas ela chegou num ponto da vida em que nada pode pará-la, e eu acho que essa é uma virtude muito engrandecedora.

MARJ: Sobre a variação de pseudônimos que artistas do selo usam, existe alguma filosofia por trás ou é mais uma questão de "vou fazer coisas em estilos diferentes, então vou usar nomes diferentes?"

LP: A ideia inicial, pelo que me lembro, era de criar massa. A ideia de ter um selo que não tem capa, então tudo é mais ou menos a mesma estética, e aí ter vários pseudônimos pra criar a sensação de que nada tem a cara de um indivíduo. Hoje, embora as pessoas saibam que vários pseudônimos eram do Guerra, a ideia do 40% era você não saber quem tá lançando, criar essa mensagem de que "o lançamento em si não é importante, o importante é o selo".

GG: Tem isso e, entrando num lado mais filosófico, quando você tem só um nome você cria uma identidade em cima dele: "eu sou o Guerrinha e eu faço esse som". Então não é que os pseudônimos indicavam outros gêneros, eles simplesmente me faziam sentir mais confortável para experimentar. "Ah, eu fiz tal coisa, então eu sou isso? Não, eu só tava experimentando". Eles te dão certa carta branca. Óbvio que é um pesadelo a nível de promoção, mas o 40% em si já envolve tanta autossabotagem que isso é quase um ativo do selo.

MARJ: E o nome do selo foi por causa de um cara, né? Que falava tudo duplicado. Ele ainda tá por aí? Frequenta os lugares?

GG: (Risadas) Era o Cabelo Veludo [Leonardo Carvalho]. Ele vai mais em shows de bandas, assim. Ele se apresenta numa casa de show na Barra, eu acho, cantando Beatles.

LP: Inclusive acho que ele jamais aprovaria as músicas do 40%.

GG: Mas é isso, ele falava tudo assim: regular barra mais ou menos, bom barra ótimo, foda barra maneiríssimo. A gente precisava de um nome meio idiota, eu não me orgulho mas acabou ficando esse. 

MARJ: O Akira S do selo de vocês é aquele Akira S? 

LP: O próprio.

GG: O disco Honda-san, pelo nosso selo, são basicamente as demos do segundo disco do Akira S & as Garotas que Erraram, que nunca aconteceu. Um amigo nosso, o Zopelar, que também já saiu pelo selo, deu essa dica pra gente: “ele tem esses arquivos, que estão meio jogados”. A gente foi falar com ele, na época era o nosso primeiro vinil, e ele falou algo assim: “ah, claro, essa bosta aí pode usar”. É um cara de um trato meio difícil, mas foi muito maneiro publicar ele. Teve um dia em que a gente foi fazer uma saudação normal, “e aí, tudo bem?”, e ele respondeu “não”.

*

Pauso aqui para fazer um desvio. Amo imensamente o movimento pós-punk de São Paulo nos anos 80. Akira S & as Garotas que Erraram, Voluntários da Pátria, Fellini, e os que eram menos pós-punk mas ligados ao mesmo ambiente, como a May East. Então é claro que a menção me lançou num buraco negro de curiosidade que me fez, depois da conversa, tentar obstinadamente apurar o paradeiro de Akira. Pelo relato que obtive, hoje vive na Holanda e trabalha como programador - inusitadamente, mesmo ofício que Lucas e Guerra alternam com a música, mas Akira já deixou a arte de lado. O relato é compatível com esse temperamento excêntrico observado pela dupla: ele veria a música como algo que “não deu certo”, talvez por ter sonhado que aquela cena o levasse a ser algo que não se tornou. Uma expectativa não concretizada, portanto, e que o levou a alguma amargura. Faria sentido: poucos que estavam ali naquele lugar e época chegaram de fato a ter carreiras musicais comercialmente sustentáveis, ou mesmo algum projeto com grande sucesso de público mais à frente. A imagem dele me paralisou. Demorei mais de um dia para conseguir voltar à escrita deste texto, e me perguntei se projetos sinceros, originais, cuidadosos, estão fadados ao fracasso. Pensei se eu mesmo, que não tenho a escrita como ocupação principal, vou chegar um dia a uma sensação de “quase”, de algo em que coloquei expectativa que fosse maior do que realmente foi, que por impossibilidade de dedicar mais tempo não se materialize em algo que “chegou lá”. Cair no cinismo. O paralelo de Akira com os donos do selo, ainda mais direto devido ao “day job” em comum, certamente também me assombrou.

*

MARJ: Como é a relação de vocês com o selo Ulyssa, lá do México e Estados Unidos? É um projeto interessantíssimo pra mim.

GG: Eles são o Eric [Deines] e o John [Williamson]. São basicamente os nossos padroeiros. Os dois trabalham numa gravadora maior, o Secretly Group, que é praticamente uma “holding de gravadoras”, que lançou várias bandas inicialmente independentes. Então eles estão sempre olhando nos cafundós, em vários lugares, e nos encontraram não sei como. Eles basicamente pegaram a distribuição, com a estrutura deles, e nos deram. Foram nossos anjos.

MARJ: E foram eles que ligaram vocês ao Bruce Hornsby, certo?

GG: Sim, exatamente, o Eric conhece o Bruce e um dia teve essa ideia maluca de achar que a gente podia fazer um disco com ele e com essa dupla dinamarquesa chamada Konradsen. Eles tinham lançado pela Ulyssa uma fita só de covers de Bob Marley, que incrivelmente vale muito a pena ouvir.

LP: Eles quiseram encabeçar mesmo o lançamento, eles tinham até o nome das músicas, a ideia, as letras. 

MARJ: E como foi o contato com o Bruce?

LP: A gente nunca falou com ele (risadas). Ele mandou a trilha de piano pra gente usar.

GG: A gente trocou arquivos, basicamente. A gente mandou umas improvisações pra ele, ele mandou de volta um piano pra cada uma das 4 músicas, a gente ainda deu uma editada em cima, foi um grande frankenstein, até por isso elas são tão longas. Mas ele gostou! A gente viu pelo menos os e-mails que ele mandava.

MARJ: Vocês tem alguma história que nunca contaram? Alguma curiosidade sobre o selo?

GG: O Lucas tem, uma música dele tocou nos stories do Michel Temer.

MARJ: Ah, sim.

LP: Quando teve o "Temer Day", tocou House Aprovado pelo Governo. O Bolsonaro era presidente, o Temer foi ter uma conversa com ele e a bolsa subiu 3% por causa disso. Aí ele postou várias coisas, e o primeiro story de todos era com essa minha música de fundo. Saiu pelo selo no álbum Ideologia Chinesa. Deve ter sido algum estagiário que encontrou a música pelo nome, sei lá.

GG: Com certeza é a coisa mais aleatória que já aconteceu na história do selo.

LP: O ápice da minha carreira.

MARJ: Sendo guardiões da cultura da descoberta analógica de músicas, de plataformas como o Bandcamp, o que pensam dos algoritmos que hoje ditam a descoberta musical?

GG: São muito nocivos, acho que tragaram totalmente tudo que existia. Eu me lembro claramente daquele momento ali por 2016, 2017, quando começa a ter a polêmica da Cambridge Analytica e toda essa concepção de como algoritmos funcionam, e como isso mudou o panorama de música como um todo. A gente começou lá em 2013, mas a gente vinha de antes interessado nessa cultura de música eletrônica. Você tinha que se esforçar pra ir atrás da parada e achar, aí aquilo passava a ser meio seu. As pessoas se dedicavam a isso, e era lindo, foi o que me fez me apaixonar por essa cultura. E agora, quando começou o algoritmo, do nada mudou muito a perspectiva, as coisas começaram a ser meio dadas, os artistas têm que ficar procurando as pessoas. Espero que as próximas gerações consigam ter essa fome de criar espaços que sejam realmente não corporativos e valorizar muito isso. O Bandcamp ainda é um paraíso de certa forma, mas mesmo assim eu acho que tem algo de errado pra ser um paraíso. Os espaços que existiam foram corporativizados. Antes era um site aqui, um blog aqui. Às vezes era super nichado, claro, mas o que acontece hoje é que os nichos são vindicados por corporações também. Isso é bem bizarro. Acaba que a maioria das coisas mais verdadeiras são as que, sei lá, tem 3 ou 4 quadradinhos embaixo no Bandcamp, as que têm menos de 1000 plays no Spotify. Acho que tem que ter uma valorização desse tipo de lugar, porque senão a gente está cavando a própria cova, e isso te faz uma pessoa cética e cínica. Sendo que ninguém deveria ser cético e cínico, você tá ali curtindo música, no final das contas.

MARJ: E o 100° lançamento em si, o que é?

GG: É uma compilação, vem de uma promessa que eu tinha feito pra mim mesmo e pro Lucas, em que eu disse: "cara, um selo chamado 40% passar de 100 é como se fosse a obra completa". Quando você dá cem discos, não tem como as pessoas falarem que essa não é uma história bem contada. O fim é uma coisa minha, acho que pelo Lucas continuaria. Pelo menos da minha parte vão ter outras coisas, mas por outros lugares.

LP: O Guerra gosta de uma história que termina.

GG: As bandas que tivemos também terminaram todas. Precisa ter um fim, e também precisa ter um meio. Ano passado foram vinte e cinco lançamentos. A gente tinha olhado: "eu preciso que as coisas que sinto que faltam no selo sejam preenchidas". E agora, óbvio que não é perfeito, mas sinto que o selo conseguiu abranger coisas que foram incríveis com 100 discos. A ideia da compilação era ter 40 faixas, mas era impossível entrar em contato com todo mundo que participou, então vão ser 14. Eu já tô imaginando o futuro um pouco, mas quero ter um tempo pra isso. O selo sempre existiu, então há treze anos eu vivo com essa mesma história sendo construída na minha cabeça. E essa coisa dos 100, eu lembro que quando estávamos no trigésimo, eu pensei: "tem que ter 100". Não ia ter só 40.

MARJ: O 40 veio de uma ideia de incompletude, né?

GG: O número 40 é muito importante. Ele não é zero, porque se fosse 0% seria uma autodepreciação básica muito tosca. 100%, obviamente, nada é. 50% seria exatamente metade, mas é muito óbvio também. 40% eu sinto que é quase lá, a gente quase ultrapassou. 

LP: É o quase quase.



*

Quando soube que o selo faria o centésimo lançamento, tive certeza de que o texto já estava ali. Se alguém tinha que estar nesse momento para cobrir o acontecimento, era eu. O que eu não esperava, sequer desconfiava, é que não seria o centésimo lançamento no meio de um percurso de lançar outros cinquenta, outros cem, mas o último. O texto ganhou uma história maior, e o que pensei ser uma entrada do blog diferente das demais, essa mais expositiva, jornalística, acabou se tornando um texto com carga emocional maior que a de vários outros. Eu nem planejava, antes da entrevista, formular uma pergunta sobre o futuro. Que vai haver um próximo lançamento do 40% era uma dessas certezas que a gente se permite acreditar como quem se joga de costas e olhos fechados nos braços de um amigo leal que não vai deixar cair, ou quem supõe que o sol vai nascer amanhã simplesmente porque nasceu ontem, e anteontem. Por mais que muitos do selo tenham outros projetos mais conhecidos, era ali o canal que usavam como refúgio para se relacionar com música da forma mais pura e ser quem são. Eu também nem cogitava perguntar se e quando eles planejavam dar um salto maior para o mainstream, porque antes mesmo da entrevista eu já tinha começado a pensar sobre o “dar certo”, mas com uma conclusão inabalável de que a publicação persistente, desinteressada da repercussão, já era o sucesso em si. Desnorteado, agora eu precisava terminar o texto antes da data de lançamento do disco mas esbarrava na falta de significado. De onde eu tiraria algum novo sentido para dar a tudo isso?

Mas, como acabei de aprender, resolvi jogar no mundo o texto mais ou menos pronto. Uma esperança no meu interior me diz que o Guerra talvez saiba o que está fazendo. Quem sabe a frustração seja um mal que só existe por causa de histórias que se prolongam por mais tempo do que deveriam. A expectativa de que algo se torne grande só pode ser frustrada se for mantida em aberto e cultivada por muito tempo. Essa história, em particular, ele tem razão em dizer que foi bem contada. É incontestável. E, bom, quem pensa o que eles pensam, e faz as músicas que fazem, não deixa de fazer música tão cedo, ainda que simplesmente para jogar em novos recantos da internet com outro nome de selo - afinal, quando a mudança de nomes foi exatamente um problema para eles? Uma resposta que cortei da parte de cima do texto, por ter alguma semelhança com outra, foi quando Lucas me falou sobre os pseudônimos: “Acho que a ideia de lançar muito é você se tornar maior do que suas músicas. Em vez de você se definir através de um disco ou dois, você se define através de uma obra, um monte de coisa que você fez e ninguém sabe individualmente as coisas, mas tem você ali acima de tudo.” 

O centésimo lançamento sai hoje, 29 de abril. Guerra me informa que o vasto acervo do 40% permanecerá na página do Bandcamp, e que quaisquer próximos passos que eles derem serão também comunicados lá. Quanto a mim, vou torcer para fazerem o que sempre fizeram, e vou seguir acompanhando, eles e outros, do único jeito que acreditamos: publicando um texto, depois outro, depois outro. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário