quarta-feira, 29 de abril de 2026
#17 - 40% Foda/Maneiríssimo comemora o centésimo lançamento e anuncia seu fim
segunda-feira, 6 de abril de 2026
#16 - "Guilty pleasures", ou Tudo Bem Se Uma Ou Outra Melodia Do Hans Zimmer Lhe Gerou Comoção
Pitacos sobre "performance", e mais: um especialista em composição clássica explica ao MARJ a canalhice das obras do artista alemão
É sempre desagradável sermos lembrados da nossa limitação biológica. Não há nada mais desolador, num arranjo social em que esculpimos boa parte de nosso comportamento público ao molde do ideal de um eu futuro, do que perceber impossível de ser alcançada essa forma final. Todo um castelo de cartas, minuciosamente colocadas em seu devido lugar, comicamente derrubado por um simples sopro que desdenha de poses e certezas. "Você não é isso tudo", ele parece dizer. Tal desmoronamento eu tive quando, concentrado em uma demanda do trabalho, entregue à escuta passiva de faixas que a reprodução automática do player de música me sugeria, me peguei chorando ao som de Cornfield Chase, do Hans Zimmer (a "música do Interestelar"). Causa, não correlação. Um choro causado exclusivamente por Cornfield Chase, do Hans Zimmer. Que desconcertante.
Tenho uma dose de convicção bem grande de que os ditos guilty pleasures, na realidade, não envolvem culpa. Eu, pelo menos, costumo caminhar até pelo extremo oposto em matéria de ceder aos prazeres, e acredito que leitores do blog também terão uma relação com a culpa cristã que não seja inteiramente mal resolvida. "Dar-se permissão", portanto, ou então guardar um segredo consigo mesmo sobre algum gosto, não é o problema. O desconforto com o gosto não vem de algum defeito inerente ao objeto mas, antes, de um terceiro, que, se não existisse, manteria a relação com o objeto imaculada. Esse terceiro é o ideal de si (o ego, diria o budismo). Não é novidade: o estágio atual do capitalismo é um de consumismo de subjetividades, aquela coisa toda¹. Os "produtos" vendidos e massificados são ideais de si e estilos de vida - notem as hordas de publicitários que dizem consumir música ou consumir mídia ou consumir arte. O guilty pleasure nada mais é do que a queda de algumas das mais apelativas dentre essas subjetividades vendidas. Como toda perda, exige um luto próprio, e o luto não é um processo indolor. Por isso a saia justa colocada por Hans Zimmer incomoda tanto: por mais que seja impossível ver quem realmente se é, cada uma dessas pequenas revelações descortina um pequeno pedaço adicional, e então se tem que fazer as pazes com esse pedaço, traga ele o que trouxer. Frequentemente é algo desagradável de admitir.
Na música, as duas principais manifestações de quedas de ideal costumam ser uma negação do próprio período formativo (um desejo retroativo de que o "letramento musical" tivesse começado mais cedo, que os gostos pessoais não tivessem sido moldados por tal e tal gênero, mas por outros), ou uma luta contra algumas limitações da própria biologia. A primeira alternativa não resolve o caso específico - quem gosta de uma peça de Hans Zimmer não necessariamente tem música instrumental como parte relevante de seu repertório, logo não se trata de uma revolta com todo o tempo gasto com aquele tipo de música e que culminou nesse gosto em particular (até existe um elemento de gostos moldados, mas voltaremos nisso mais à frente). O fator decisivo, de longe, é a perda da onipotência: a dificuldade de aceitar a divisão entre eu e mundo, um corpo encerrado em si mesmo, delimitado por contornos. Por mais que os fenomenólogos já tenham mostrado parte do caminho para extrapolar os limites do corpo e se lançar em direção ao mundo, a angústia cartesiana - desenvolvida no texto 5 - ainda parece se mostrar presente quando um intelecto que tem desejos de infinitude é confrontado com o fato de ser um primata um pouco mais evoluído, o DNA de uma banana só um pouco mais complexo, ou, como diz a frase, um pepino com ansiedade. Nessas horas, vem uma consciência humilhante de quão hackeáveis somos por cientistas que sejam suficientemente dedicados a identificar nossos padrões e explorar essas descobertas.
Essa manipulação acontece há muito tempo, é claro, e no início talvez não fosse perversa. Muito do desenvolvimento das teorias estéticas veio da documentação de obras calibradas por tentativa e erro, desde apresentações ao vivo que eram aperfeiçoadas a partir das reações do público e depois registradas por meio da escrita musical, até as peças gregas de drama e comédia em torno das quais se estruturaram por escrito as teorias da narrativa. Chegou-se às "grandes fórmulas" do Ocidente, e todos sabem que elas são amplamente apropriadas por Hollywood, pela indústria da música, e por onde quer que exista dinheiro. Uma vez que capitalismo é basicamente a exploração de características da natureza e de barreiras de entrada, no nosso caso os produtores encontram a maior propensão natural possível ao triunfo dessas tentativas: um público "consumidor" que, dotado de um corpo, submete esses produtos da indústria a um filtro orgânico. Alguém toca uma sequência de notas na escala pentatônica e você sente prazer, um roteiro apresenta um Chamado À Aventura seguido de uma Provação Suprema que culmina na Ressurreição (a dita Jornada do Herói) e jatos de serotonina jorram generosamente pelas suas vias internas, dopando como um dardo tranquilizante, heroína direto nas veias. A coisa funciona, o que se pode fazer?
Seria muito fácil que este texto dissesse “Hans Zimmer é o Christopher Nolan da música”. Vou até me poupar disso, porque o histórico extenso de colaboração dos dois já torna a associação imediata o suficiente. Fato é: se Hollywood é a capital das obras formulaicas, Zimmer é o ditador supremo. Hoje, no blog Música Ambiente RJ, ele será desmascarado. Eu tinha um caminho para fazer isso. É o mais intuitivo, com argumentos menos técnicos, mas o mais verdadeiro. É o caminho que foca no aspecto místico - por isso mesmo a explicação não é longa, mas algo como uma realidade que se descortina, que depende de alguma compreensão além do dito. Na sua essência, Hans Zimmer é um show de "candlelights", um Coco Bambu. Não preciso avançar muito além, acho, porque seria pouco frutífero. Mas posso tentar trazer alguma materialidade a isso, associando essa vertente - digamos, a vertente mística - do feitiço de Zimmer ao seu timbre. Esse, evidentemente, afeta sensibilidades em processo já um pouco avançado de atrofia. Mas não quero justificar tudo pela metafísica e não dizer mais nada. Pelo compromisso com o jornalismo e com o conhecimento objetivável, busquei ajuda para explicar a segunda vertente de Zimmer - a da teoria musical. Agora conseguiremos descrever os mecanismos do compositor alemão com lastro na realidade material. Mais do que uma "cafonice" abstrata, passamos a falar de clichês, partindo de elementos muito mais concretos na análise.
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Para a engenhosa tarefa, convidei Philippe Meyohas, compositor e pesquisador em musicologia histórica. Mestre pelo PPGM/UNIRIO e doutorando na área de Documentação e História da Música, foi indicado em 2024 ao 21° Prêmio Rádio MEC pela faixa A Arte do Retorno, III. Tem um disco, Em Claustro, Em Tormenta (2021), publicado pelo A Casa Discos, além de dois EPs. Já fez trilhas sonoras e teve músicas suas licenciadas para filmes, em especial o longa-metragem Fogaréu (2022, dir. Flávia Neves). Você pode segui-lo no Instagram em @philippemeyohas. "Algo como um misto entre Philip Glass e Coldplay", ele começa a descrever Hans Zimmer. Começamos pelo lado místico, mas ele logo passa a preferir a abordagem da teoria musical. "Timbre é algo um pouco mais difícil de julgar, porque é muito pessoal", embora pontue que as escolhas de timbre e mixagem de Zimmer estejam entre as que mais contribuem a esse resultado final mais palatável a um número maior de pessoas: "Alguns efeitos específicos, em especial de reverb e edição, certamente colaboram. Em momentos mais dramáticos você frequentemente vai ter uma orquestra de cordas tocando três acordes, por exemplo. Mas acima de tudo o Hans Zimmer, como produto comercial, 'funciona'. Não dizendo de maneira pejorativa, mas é preciso considerar a expectativa de público. É preciso considerar, também, a função da música dentro do filme, que é de ser praticamente um ator. Nos filmes, o trabalho do trilheiro é feito mais em proximidade com o montador do que com o diretor, tanto que é comum que cenas sejam montadas a partir da música - essa é a chamada música incidental. É muito diferente escutar uma obra musical que tenha o seu próprio discurso artístico e uma que esteja em função de um outro discurso. Essa, a incidental, talvez soe descritiva demais. Isso nem seria algo tão negativo por si só, mas se torna um problema ainda maior quando, como no caso específico do Hans Zimmer, ela é descritiva a partir de signos excessivamente consagrados, de clichês que circulam desde a ópera barroca. O que mais me vêm a mente são as trilhas de Purcell, um compositor inglês do fim do século XVII".
Pelo lado da teoria musical, Philippe aponta certa pobreza na obra do compositor alemão: "A música de Hans Zimmer é uma música claramente motívica. Um motivo é uma pequena sequência de alturas, com uma determinada duração, e é basicamente entendido como uma ideia melódica. Desde antes do Renascimento, na polifonia flamenga, os compositores faziam arranjos corais para a música litúrgica católica. Cada ofício da liturgia tinha um canto específico prescrito. O que esses compositores faziam, para criar uma unidade estética na obra, era usar um motivo desse canto original e desenvolvê-lo ao longo da obra. Isso era feito a partir de variações da sequência de notas primordial: inversão, transposição, expansão ou diminuição, retrogradação, apropriação do ritmo do motivo. Esse era o contraponto imitativo, mas a ideia de desenvolvimento motívico pode se aplicar a variações de uma ideia do próprio autor, evidentemente. A grande referência em contraponto é Bach. A Arte da Fuga é o maior exemplo de desenvolvimento motívico, feita inteiramente na exploração de uma mesma frase. Um contraponto bem feito faz derivações de diversas maneiras, a ponto de você deixar de reconhecer com clareza que ele continua ali. A questão com o Zimmer é que, em vez de desenvolver o motivo, ele repete. Até pode haver algo de variação, mas o que ele faz, para manter o interesse do público, é basicamente rearranjar. Tocar com outros instrumentos, variar o timbre, a textura (no sentido de harmonia), as escolhas de mixagem."
Mas o que faz, então, Hans Zimmer "funcionar"? Por que Time e Cornfield Chase são música de fundo de 95% dos vídeos motivacionais que têm imagens de boxeadores suando, discursos lidos em spoken-word com a prosódia evangélica que acompanha o exato ritmo dos momentos dramáticos da música? Por que eu, cobaia involuntária dos experimentos de laboratório dos grandes estúdios, caio no truque? "Bom, primeiro de tudo, porque você é literalmente conduzido a isso. Muita gente esquece que a teoria musical é arte no sentido de artesania mesmo, de técnica. É uma das formas de arte que mais costuma ser discriminada como uma questão de 'feeling', de 'sentir a vibe', mas dentre as artes a música é a que foi mais teorizada justamente com a finalidade técnica. E, bom, tem aquela história de que o clichê é clichê por algum motivo. Nos primórdios do contraponto, e depois da harmonia, que é um prosseguimento, a ideia dos compositores e tratadistas sempre foi fazer algo objetivamente belo. Na época de Palestrina (mestre de capela do Vaticano que se tornou referência na época da Contrarreforma), a música sacra tinha que ser muito estável, agradável, um milhão de coisas. Houve uma normatização. E esse "belo universal", por incrível que pareça, tem um certo fundamento acústico, como os princípios de consonância e dissonância. É claro que ainda há arbitrariedades, e com outras contingências históricas poderíamos ter um outro tipo de música predominante na teoria musical europeia. Mas a música em geral que se baseia nesses princípios acústicos, não à toa, emociona. Por isso é engraçado quando alguém que estudou profundamente composição tonal e compôs algo dentro do seu domínio é tratado como gênio. Não, essa pessoa apenas maneja um sistema que estava totalmente pré-estabelecido, que tinha conscientemente uma causa e efeito. O Hans Zimmer, por exemplo, às vezes usa a escala do lídio, que é um modo eclesiástico consagrado. Sem falar nas técnicas de mixagem, que vão fazer algo comovente e agradável, além de escolhas de orquestração. Ou seja, é tudo muito bem pensado por muitas pessoas."
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Resolvida a estética, podemos tentar esboçar uma ética. De que maneira me relaciono com as composições de Hans Zimmer daqui para a frente? De um lado eu posso "bancar o desejo", como hoje se diz. Fechar as portas completamente a qualquer relação complexa com o prazer, afinal somos um povo emancipado e não há espaço para a culpa. Aquilo de que eu gosto, então, fica automaticamente definido como algo "bom". É claro que a proposta soa sedutora, mas para além do linguajar publicitário, a ideia já faz pouco sentido por si só. Não deveria ser complicado conciliar as afirmações de que eu gostei de um objeto e esse objeto, tanto por critérios que costumam embasar uma análise estética mais robusta como por ser simplesmente genérico e formulaico, talvez não tenha alto valor. A pergunta a ser feita talvez seja mais da ordem prática: vale a pena gastar o tempo escutando Hans Zimmer? A música, felizmente, é uma arte generosa quanto a isso. Se não considerarmos o disco como a menor unidade musical, qualquer dessas faixas avulsas de Zimmer que ornam vídeos motivacionais pode ser ouvida sem gerar um grande prejuízo de tempo. Compare a duração pela qual o intelecto fica investido nesses três ou quatro minutos com a duração inteira de um filme do Nolan, por exemplo. Não é uma questão de aceitar que a arte esteja permanentemente na prateleira do prazer e conforto, recusando sua importante função de transformar o ouvinte e a coletividade para melhor, mas o ser humano é naturalmente instável e comporta diferentes estados de ânimo. É muito mais fácil imaginar que esses momentos de oscilação durem o tempo de uma faixa do que se sustentem pelas duas horas de um longa-metragem mais insípido.
Mas a pergunta real, maior do que essa, talvez seja: agora que eu já chorei vendo esse cara, o que é que eu faço com isso? Eu ainda sou uma pessoa dotada de valor próprio, digna de carinho, de amar e ser amada? Eu mesmo não tive uma figura para me dizer estas palavras de afirmação de que eu precisava depois de ouvir Cornfield Chase, então vou me encarregar desse papel para você, leitor, que talvez esteja passando pela mesma coisa. Você tem valor. Você ainda é digno de amar e ser amado. Você foi vítima de manipulação emocional deste compositor alemão. Você não tem culpa. Isso não diz sobre seu caráter, diz sobre um reflexo corporal. Como quem vomita no sofá de um amigo. Você não odeia seu amigo, você precisou vomitar ali porque tinha uma necessidade fisiológica e não conseguiu chegar ao banheiro. Não foi uma decisão do seu intelecto. Você chorou escutando Hans Zimmer, e você vomitou no sofá do seu amigo. Não tem problema. Não tem problema.
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Mesmo bem resolvido internamente, resta decidir se o mundo externo saberá disso. Posso vestir de novo aquela fantasia que me valorizava tão bem, aquela pose e refino crítico que eu tanto admirava em mim, e guardar segredo. A separação entre eu público e eu privado sempre existiu - embora tenha se acelerado no fim do século XVIII com a consolidação do lar burguês -, mas o impulso de dividir as personas atinge seu ápice hoje, justamente nos arredores de 2025, quando "performance" ganhou o prêmio Música Ambiente RJ de Palavra Do Ano. Gostaria muito de evitar tal palavra nesse texto, mas a epidemia está em máximas históricas. Don DeLillo pode nos ajudar a digerir tudo isso (tradução da Companhia das Letras):
"Alguns dias depois, Murray me perguntou a respeito de uma atração turística conhecida como o celeiro mais fotografado dos Estados Unidos. Pegamos o carro e rodamos trinta e cinco quilômetros, até os arredores de Farmington. Vimos campos e macieiras. Cercas brancas riscavam a campina ondulada. Então começaram a aparecer os cartazes. O CELEIRO MAIS FOTOGRAFADO DOS ESTADOS UNIDOS. Contamos cinco cartazes até chegarmos ao local. Havia quarenta carros e um ônibus de turismo no estacionamento improvisado. Seguimos uma picada em direção a um lugar um pouco mais alto, reservado para observadores e fotógrafos. Todas as pessoas, ali, tinham máquinas fotográficas; algumas traziam tripés, teleobjetivas, jogos de filtros. Havia uma cabine na qual um homem vendia cartões-postais e diapositivos — fotos do celeiro tiradas de lugar alto. Ficamos perto de um arvoredo observando os fotógrafos. Murray permaneceu calado por muito tempo, de vez em quando rabiscando anotações num caderninho.
— Ninguém vê o celeiro — disse ele, por fim.
Seguiu-se um longo silêncio.
— Depois que a pessoa vê os cartazes sobre o celeiro, não consegue mais ver o celeiro.
Calou-se mais uma vez. Pessoas com máquinas fotográficas iam embora, sendo imediatamente substituídas por outras.
— Não estamos aqui para captar uma imagem, e sim para manter uma imagem. Cada foto reforça a aura. Dá pra você sentir, Jack? Um acúmulo de energias sem nome.
Houve um silêncio prolongado. O homem na cabine vendia cartões-postais e diapositivos.
— Ficar aqui é uma espécie de entrega espiritual. Só vemos o que os outros veem. Os milhares de pessoas que já estiveram aqui, os milhares que hão de vir. Aceitamos fazer parte de uma percepção coletiva. Isto literalmente impregna nossa visão. De certo modo, uma experiência religiosa, como toda atividade turística.
Outro silêncio.
— Eles estão tirando fotos de tirar fotos — disse ele."
David Foster Wallace, comentando o trecho, acrescenta: "não só as pessoas estão observando um celeiro cuja única reivindicação à fama é ser um objeto de observação, como o estudioso em cultura pop Murray está observando pessoas observarem um celeiro, e seu amigo Jack está observando Murray observar a observação, e nós leitores estamos obviamente observando o narrador Jack observar Murray observando, etc (...). Ao se manter em silêncio e não participar da farsa, Jack diagnostica com eloquência a exata doença da qual ele, Murray, observadores de celeiro e leitores todos sofrem".
*
(Uma saída)
O problema que se alastrou, me parece, é um excesso de antropologia. Podemos pensar nas causas: Reels, Tiktok, um humor crescentemente centrado em estereótipos. Um aumento no tempo que se passa pensando na imagem de si em relação a terceiros: um pensamento sempre relacional, socialmente situado. Com a proliferação de "conteúdos", ironicamente a substância dentro desses invólucros diminuiu, e mais do que qualquer coisa a função das redes sociais é fática. "Gente olhando gente", disse o "carioca da chuva" num vídeo recente sobre o carnaval do Rio de Janeiro (injustamente). A antropologia se tornou uma área transversal que agora sufoca o debate sobre todas as outras: pouco se fala hoje de cinema, literatura, música etc. Quase toda conversa é na verdade sobre quem é você a partir de seus gostos no cinema, na literatura, na música. Obcecado pela linguagem, pela autoconsciência, o debate virtual só menciona estereótipos. É um tipo de humor muito fácil de ser feito, note-se, porque é puramente descritivo: realmente, o homem de Laranjeiras é assim, a mulher da Barra da Tijuca é assado; parabéns. A única coisa que diferencia entre si os vídeos desse gênero é uma variação mínima no estilo do humor, que reposiciona a sátira em algum lugar do espectro caricatura - pintura realista. Mas sempre sendo, no mínimo, uma caricatura, e no máximo uma pintura realista, nada nunca além disso, nada nunca ousando sonhar em ser algo mais rico do que isso. Superegos coletivos num tempo em que já devíamos ter reduzido o tamanho dos superegos, mas eles apenas continuaram existindo ali no canto, na condição de se disfarçarem de piadas sobre modos de se colocar no mundo. A saída, além de evidentemente fazer pouco caso desse tipo de discurso e "conteúdo" na internet, envolve aumentar o volume de debate sobre objetos reais - voltar a discutir arte, não "estilo de vida". Nunca sairemos disso enquanto não fizermos o esforço de olhar para as coisas e não para quem está olhando as coisas.
A "ética da comoção" no caso específico de avaliar Hans Zimmer se dá, como este texto com algum insucesso tentou fazer, desviando o olhar do público que o escuta, dos signos sociais que ele carrega. Entendendo um mínimo sobre suas composições, entramos em posição de falar sobre a música, não sobre o malefício social causado por A Origem, Interestelar e outros filmes que usam suas trilhas. Retornei ao nosso entrevistado pedindo sugestões de compositores contemporâneos ainda dentro dos timbres mais melosos para dias em que tenhamos as tais oscilações de humor, mas num conjunto de artistas cujas composições ao menos tragam algum tipo de frescor: "Dentro de uma perspectiva analítica e histórica, acaba sendo difícil defender que algo de interessante esteja sendo feito fora do sistema pós-tonal, que é esse desenvolvimento depois do dodecafonismo de sistemas composicionais que não sejam baseados em escala e em acordes baseados em terças". Mas, cansado das acusações de que o blog é excessivamente historicista, insisti. "Bom, embora não sejam exatamente pós-tonais, tem a Hania Rani, que tem bons timbres, e acabou de fazer Valor Sentimental. Gosto muito das coisas que a Kali Malone faz, também". Você pode igualmente, claro, escutar a discografia do próprio Philippe. Ou em última análise, se quiser, ninguém o impede: pegue o final do seu domingo para escutar um Hans Zimmer enquanto degusta um sorvete de pistache. Se as propriedades do fruto pistache têm um bom encaixe com suas papilas gustativas, essa é, até onde eu sei, a única coisa que importa.
¹ Lipovetsky, principalmente
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
#15 - Festival Novas Frequências 2025: andar pela paisagem, na direção da música
Acompanhei Kara-Lis Coverdale, Sarah Davachi e as intervenções sonoras no Parque Lage
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
#14 - Equivocou-se Walter Benjamin: Ichiko Aoba tem passagem transcendental por São Paulo
Não é possível neste caso escrever uma crítica de arte sem recorrer à metafísica; em certo momento, ela imitou um pinguim
terça-feira, 11 de novembro de 2025
#13 - Uma teimosa defesa da folga
Mogwai no Circo Voador, John Cage e a importância de não otimizar
Os atuais vídeos de yoga na internet se dividem em dois tipos. Um deles é exclusivamente informacional, e quer "transmitir conteúdo". O objetivo é que você decodifique a mensagem, não importa a forma como está sendo dita, em termos de posições que o corpo deve fazer, e as execute. Deve-se mexer este músculo de uma certa maneira e depois aquele outro. A instrução é pontual e facilmente identificável no corpo. Quanto menos ruído houver no caminho, melhor. Falo de ruído enquanto acontecimentos acessórios - barulhos, detalhes do rosto de quem está falando, uma dicção estranha; em suma, tudo que implique um risco maior de distração. Se possível, que essa série de posições corporais seja assimilada por "download". Os Jetsons se alimentavam por pílulas, e o dilema é o mesmo. Por um lado, a inegável eficácia, mas por outro a perda dos aspectos sensíveis que rodeiam o ritual da alimentação ou da prática de yoga.
O segundo tipo de vídeo é um excessivamente estetizado, em que se nota que o criador deu atenção à forma mas simplesmente foi mal assessorado na formação de seu senso estético. Trata-se do yoga mais comercializável, no estereótipo ao qual costuma ser mais imediatamente associado - a estética clean, novaiorquina, a ideia de yoga como "estilo de vida", ou seja, não como algo que se pratica, mas como algo que você é visto praticando. Acontece que trancado dentro de casa na pandemia, precisando fazer qualquer tipo de movimento físico, tive a sorte de achar um vídeo que não pertencia a nenhum dos grupos. Era do Gilberto Schulz, e continha uma série de movimentos que eu deveria repetir todos os dias. No início repetia por não ter memorizado ainda a sequência, mas depois percebi que, mesmo já sabendo o passo-a-passo, algo ainda me prendia ali. Com as múltiplas exibições me acostumando ao vídeo, uma espécie de relacionamento foi criado: como em qualquer outro, há a criação gradual de uma familiaridade com o particular daquele objeto e, para isso, é necessário que o objeto tenha uma personalidade suficiente para se estabelecer raízes nos seus detalhes. Esse vídeo tinha diversos deles. Pertencia à realidade, era algo a ser vivenciado no mundo. Tinha suas próprias invaginações e trejeitos, e um deles motivou este texto.
Perto do fim da prática, no interlúdio para uma meditação guiada que conduziria, o instrutor nos dava um momento de descanso. A sessão de yoga era leve, uma das menos desgastantes que eu já tinha feito. E, mais ainda, o vídeo feito na pandemia talvez tivesse a maioria de seus espectadores passando os dias em casa, com um cansaço que era somente mental, não físico. O descanso fazia inicialmente pouco sentido, então. De barriga para cima e joelhos dobrados, o quadril passava de uma posição inicialmente erguida para finalmente entrar em contato gradual com o tapete, seguido pela coluna. A ordem era descer vértebra por vértebra, começando pelas mais próximas da cervical, que estavam menos elevadas, até que o corpo estivesse em nivelamento horizontal. Eu ganhava consciência das vértebras e sentia o contato delas com a maciez do tapete, perfeitamente alinhadas. Depois ficávamos por um minuto estatelados no chão, descansando. Só sei que ali não importava que o descanso fosse redundante, que o exercício anterior já tivesse sido quase um relaxamento: por algum motivo aquele momento me afetava ainda mais por isso. Acho que a redundância do descanso ganha esse poder, que vem não da qualidade de necessário, porque quando ele é necessário é também pouco notado, governado apenas por ação e reação. A respiração profunda é mais prazerosa em repouso do que quando se está recuperando, ofegante, de um exercício intenso. Quando se cria essa camada de redundância, parece que é aberta uma consciência maior sobre o acontecimento, e fica mais explícito o ato de cuidado por trás.
Lembro de sentir o mesmo com outro youtuber que fazia lives e nos presenteava com cinco minutos de espera no começo, para que o público da live tivesse tempo de chegar (uma espera na presença dele, com ruídos, não uma espera fora do ar). Essa espera também vinha como um descanso, ainda que o vídeo tivesse acabado de começar, e isso sempre me afetava de uma maneira similar a um ASMR. Em outro vídeo, de uma aula de doutorado em alguma universidade gringa, o professor divide o longo conteúdo em duas partes ao oferecer para os alunos um pequeno intervalo ali no regime presencial. Sem cortes, o vídeo conservava a lentidão do período de pausa e, em vez de pular para a volta do conteúdo eu vivenciava essa pausa com prazer maior do que o resto do vídeo. Várias vezes, depois de já ter terminado a aula, eu voltava para esse vídeo especificamente nos minutos de pausa. Todos esses exemplos se iniciam no gesto de arranjarem para nós um espacinho para respirar, um espacinho como aquele entre as vértebras e o solo, quase imperceptível. Mas que nós assimilamos em toda a sua completude, porque o corpo recebe essas pausas com alívio. Podemos batizar conceitualmente esse espaço de folga.
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Numa avenida movimentada em horário de almoço de um dia útil, um homem de camisa social anda depressa, como uma seta num fluxo de setas que percorrem direções aleatórias, governadas pelo caos. Ele não tem consciência disso, mas vive buscando otimizar cada segundo de seu dia. Com o sinal aberto para os veículos, ele vê um carro se aproximando em velocidade moderada, mas numa fração de segundo calcula que sua travessia ousada deve dar certo. De fato, completa a chegada ao outro lado, tendo economizado alguns segundos. Satisfeito com sua sagacidade, um pequeno jato de serotonina banha seus órgãos internos. "Tomei uma boa decisão", ele diria se estivesse buscando palavras para externalizar esse breve momento de prazer. Essa pequena conquista acrescenta ao castelo que ele constrói cuidadosamente, com disciplina e consistência, à ideia de si como alguém que "toma boas decisões". Ele é uma pessoa otimizadora.
A teoria econômica chama este sujeito de homo economicus. Os dispositivos teóricos que o neoliberalismo desenvolveu para fundar e legitimar suas bases de funcionamento necessitam, literalmente (porque os modelos matemáticos usados para representar fenômenos ecônomicos dependem de certas hipóteses sobre os agentes), que os indivíduos modelados sejam do tipo homo economicus. Isso sempre aderiu de forma surpreendentemente boa à realidade quando se trata de quem tem o poder decisório - donos de empresas, por exemplo. Mas lamentavelmente a era dos empresários-de-si fez disseminar na sociedade a sanha otimizadora como uma infecção. Cresce o número de pessoas, até as que podem escolher, que têm uma rotina apertada, sem espaço para besteiras e vícios. Hobbies apenas se tiverem propósito, conversas apenas com pessoas que te lançam para frente, que sejam as quatro mais inteligentes que você dentro da sala, sem papo furado jogado fora. Decadência do álcool, crescimento da coca zero. Aqui, quem impera é o oposto da folga. Esse aperto na rotina, a hipertrofia do treino, os adjetivos "tight" ou "clutch" usados como os maiores dos elogios na língua inglesa. E, como não devia ser surpresa, isso está incorporado nos modelos econômicos.
A otimização se trata do seguinte: um agente econômico, para tomar uma decisão, usará as informações disponíveis - fórmulas matemáticas, basicamente. Ele sabe sua própria função de lucro, sua função de custo, as fórmulas de comportamento dos consumidores, de seus empregados. De posse disso, ele maximiza sua função de lucro, o que consiste em escolher determinados valores (quantidade de insumos de produção, salários dados aos empregados, horas de trabalho exigidas de cada empregado, preços cobrados aos consumidores) que levem aos melhores resultados para sua função. Essa maximização, entretanto, encontra alguns obstáculos. São as chamadas restrições, como a existência de um salário mínimo, de um máximo permitido de horas que um empregado pode trabalhar, de um preço máximo que pode ser cobrado dos consumidores antes de ser considerado abusivo. Se não fosse por essas restrições, o "ótimo" (no sentido técnico, isto é, a solução que otimiza o resultado para o empresário) seria sempre pagar salário zero e exigir horas infinitas. O conceito matemático de otimização é rigorosamente este: maximizar uma função enquanto se está sujeito a certas restrições. Às vezes o problema matemático a ser resolvido é o inverso - minimizar uma função de custos dadas certas restrições que a impedem de ser infinitamente baixa - mas são dois lados da mesma moeda.
Acontece que, devido às assimetrias de poder, uma dinâmica econômica nunca resultará em uma condição folgada para trabalhadores e consumidores. Matematicamente, a busca por maximização de lucros consiste na escolha de x e y que sejam os que maximizam a função f(x,y). Para isso, tem-se uma lista de restrições a serem seguidas. Elas são do tipo g(x,y) ≥ c, ou h(x,y) ≤ b. Essa modelagem do "maior ou igual" ou "menor ou igual" representa o fato de que as restrições vêm na forma de um valor mínimo ou máximo a ser respeitado. É reservado ao empresário o direito de pagar acima do salário mínimo ou de pedir que seu funcionário trabalhe menos de 44 horas semanais. Observamos na teoria econômica, no entanto, os modelos prevendo que o empresário homo economicus, pessoa otimizadora, seguirá sempre à risca as condições impostas a ele. Quando isso acontece, dizemos que a restrição original se torna uma "binding constraint", ou seja, aquela função que deveria ser maior ou igual a um determinado valor passa a valer, após resolução do problema matemático, com igualdade - no formato g(x,y) = c. O salário poderia ser maior que o mínimo, mas buscando a maximização do lucro a escolha final do empregador será, sem surpresas, simplesmente aquele que ele foi obrigado a pagar. A qualidade do chocolate de hoje é pior que a de ontem porque o custo para o produtor subiu e ele, minimizando sua função de custos, adultera a qualidade do produto para manter seu lucro igual. O capitalismo é viver no extremo da maximização ou da minimização. O acúmulo é grande, mas as partes frágeis, como um pano encharcado que é retorcido e apertado até secar, vivem no limite. O termo binding é a perfeita representação desse aperto, dessa ausência total de folga que nos governa. É o mesmo termo usado no Direito quando se elabora contratos e certas cláusulas são obrigatórias de serem seguidas. São chamadas de "binding clauses". No fim, talvez Machado tivesse razão quando descrevia o deleite de se remover sapatos apertados. Quando eu lia os livros de teoria microeconômica que continham esses problemas de otimização, minha relação com as binding constraints, mais do que uma revolta intelectual, era radicalmente sensorial. Saber que a resolução do problema matemático passava por esse aperto me fazia sempre ter devaneios de tirar os sapatos e experimentar a folga, imaginando a sensação de alívio.
Por acidente o exemplo da quantidade de horas trabalhadas pelo funcionário, decidida pelo patrão, resultar em uma condição de aperto nos lembra novamente o início do texto, a folga definida como descanso. Tal qual as férias do trabalho ou uma espera pela abertura do sinal que em nada otimiza a rotina (mas salva a mente de um estado contínuo de paranoia) ou os espacinhos de inação num vídeo de yoga, num início de live e num intervalo de aula, a folga é a margem entre o ponto que vivemos e o ponto ótimo, esse excesso que nos garante uma distância protetiva, que nos salva da otimização. Os grandes empresários hoje usufruem de excesso - as margens de lucro. Mas dificilmente terão o descanso mental, porque sendo produtores e produtos da cultura do aperto, a paranoia otimizadora está codificada no centro de seu ser. A nível de organização coletiva, deveríamos reivindicar para nós todas as margens. Mas a nível individual, devemos no mínimo reivindicar a folga simbólica. Valorizar a lentidão, as ineficiências, os desperdícios, repelir a pressão pela magreza (manifestação corporal da minimização), cultivar pequenos vícios.
*
A folga é também dimensionalidade - Husserl falava do "horizonte interior das coisas", se referindo ao conjunto invisível do que é possível, mas não realizado. O potencial, digamos. A folga são todas as camadas inativadas, abertas em suspensão. Pedro Cassel tem um poema chamado "Profundidade de Campo" que nos abre uma fresta para esse mundo:
estou feliz porque vi meus amigos,
feliz porque na sessão de cinema
tinha muita gente bonita e interessante
que não conheço e posso nem vir
a conhecer, mas cuja existência
enche de possibilidades a vida,
amplia a profundidade de campo
da cidade em que vivo e na qual
estou feliz em morar, porque ontem
num trajeto curto de bicicleta
vi um parque, um bar, um puteiro,
um homem bonito com dois cachorros,
uma árvore caída e um cego cantando.
*
"We're going to play two more songs", disse Stuart Braithwaite, do Mogwai. Deviam ter se passado só uns 50 minutos desde o começo do show, que se deu pontualmente às 21h da última quarta-feira, dia 5, no Circo Voador. Era o retorno da banda escocesa à nossa cumbuca acústica depois de treze anos. Mesmo que em 2012 já fossem veteranos e tivessem discografia suficiente para se assentarem e viverem de greatest hits, usufruindo da paz de estar entre os grandes do rock, o grupo continuou ativo nos álbuns de estúdio e fez muitas de suas melhores músicas desde então. Do repertório tocado nesta quarta, sete foram criadas neste período: uma do disco Rave Tapes (2014), outra de As The Love Continues (2021) - a já histórica Ritchie Sacramento - e cinco de The Bad Fire, lançado este ano, que incluem a excelente Fanzine Made Of Flesh. Ainda que um anúncio de estar a duas músicas do fim após meros cinquenta minutos de show costume ser um pouco frustrante, fiz as contas rapidamente. Deviam ter duas de uns dez minutos cada, depois certamente um bis com Ritchie Sacramento e, com sorte, o calhamaço musical Mogwai Fear Satan. Beleza! Ainda estamos na metade do show. Um amigo me disse nessa hora: "Eu não gosto desse negócio de bis não. Acho que ele tem que dizer quantas realmente ainda vai tocar e ficar estabelecido isso". Respondi: "É uma delícia essa sensação de final falso. Você não programava o despertador pra bem cedo nas férias do colégio só pra sentir o alívio de perceber que não precisa levantar de verdade?". E nisso percebi que em última análise eu me referia ao aperto dos sapatos para tirar depois, à redundância da pausa nos vídeos de yoga.
O uso de tampões no ouvido em shows é relativamente comum - os próprios membros da banda todos os tinham. Mas uma moça em particular usava um literal equipamento de proteção individual, um daqueles protetores auriculares vermelhos de loja de material de construção. No início achei certa graça, porque mesmo sabendo do volume que seria alcançado naquele recinto eu desejava viver a experiência sonora completa. No dia seguinte já a invejava com bastante amargura, conforme eu tentava me comunicar ao longo do dia e ouvia as demais pessoas com muita distância, isoladas de mim como que por uma câmara sonora. Mas não tem importância: a parede sonora foi arrebatadora, seja pelos agudos estridentes gerados por três guitarras que tocavam ao mesmo tempo suas notas na parte mais profunda do braço, seja pelo baixo que, do piso de madeira da pista, eu sentia reverberar em mim de baixo a cima, num fluxo que me chegava pelos pés e subia até o coração, se misturando com as batidas cardíacas. Tendo ouvido de amigos que dias antes haviam ido ao show em São Paulo, no Parque Ibirapuera, que a acústica aberta do parque dispersava o som, me senti no Circo (como realmente num circo) um motoqueiro do globo da morte, a arena fechada vibrando e rodando violentamente aos comandos do grupo. Evidentemente com pouco uso de vocais, eu olhava para a banda e devaneava com frequência sobre a facilidade com que aquela formação que via ali no palco podia ser a formação de uma banda de rock mainstream das mais populares e lembradas entre gerações se cedesse ao uso da voz. Está aí a beleza do post-rock: a dimensão de possibilidades de que se escolheu abrir mão pelo enaltecimento dos instrumentos e, de vez em quando, da voz como instrumento. Husserl e seus herdeiros já nos mostraram que esse espaço deixado também pertence ao ser. Logo, a banda não escolheu deixar de ser nada daquilo ao abrir mão dos vocais mas, pelo contrário, conserva a beleza de suas potencialidades de forma oculta. A folga com que resolveu atuar confere à sua música uma riqueza subjacente, um horizonte interior, tão importante quanto o externo. A profundidade de campo é maior em Mogwai.
*
Adriano Imperador, em texto publicado no The Players' Tribune, se colocou ao mesmo tempo como desperdício e potencialidade:
"Você sabe o que é ser uma promessa? Eu sei. Inclusive uma promessa não cumprida. O maior desperdício do futebol: Eu. Gosto dessa palavra, desperdício. Não só por ser musical, mas porque me amarro em desperdiçar a vida. Estou bem assim, em desperdício frenético. Curto essa pecha. (...)
Tentei fazer o que eles queriam. Barganhei com o Roberto Mancini. Me esforcei com o José Mourinho. Chorei no ombro do Moratti. Mas não consegui fazer o que eles pediam. Eu ficava algumas semanas bem, evitava o danone, treinava feito um cavalo, mas sempre rolava uma recaída. E todo mundo me detonava. Eu não aguentava mais.
Tu tá vendo agora. Tem algo demais acontecendo no nosso rolé? Não. Desculpa decepcionar quem quer que seja. Mas a única coisa que eu busco na Vila Cruzeiro é sossego. Aqui eu ando descalço e sem camisa, só de bermudão. Jogo dominó, sento no meio-fio, lembro minhas histórias da infância, ouço música, danço com os meus amigos, durmo no chão. Vejo o meu pai em cada uma dessas vielas.
O que mais eu vou querer?"
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Uma aparição ainda mais musical da folga é no manejo de silêncios. Mogwai sabe disso. Ainda que suas músicas mais ambiente no sentido puro não costumem fazer parte da seleção tocada nos shows, Fear Satan já traz uma amostra boa o suficiente. A obra prima exibe um controle magistral de volume, numa jornada que varre todo o espectro entre quietude e barulho. No meio da música, um silêncio quase absoluto por cerca de dois minutos que toma o Circo Voador. Só para logo em seguida a banda retornar com um som abrupto dos mais ensurdecedores da noite, perto de encerrar o show. Mesmo na seleção da setlist esse controle também se mostra presente em cada uma das outras músicas. Mogwai, e ao vivo mais ainda, tem quase a construção lenta de uma banda de slowcore. Gerenciando tensão e alívio, a progressão dura quanto for preciso para levar à liberação esperada - algo inconcebível na música de rádio, projetada e programada para ser eficiente, econômica e condensar conteúdo sem ter silêncios "despropositados" no meio.
John Cage tinha uma relação com o silêncio melhor do que ninguém. Foi ele quem compôs 4'33", uma peça musical cuja partitura ordena que seu intérprete fique parado em frente a um instrumento (originalmente piano, mas é permitido qualquer outro) em silêncio por quatro minutos e meio. Interpretada pela primeira vez por David Tudor em 1952 no Maverick Concert Hall, as reações do público envolvem, de vez em quando, algumas risadas, mas Cage estava fazendo uma investigação filosófica. Ele não acreditava no vazio, e sabia da impossibilidade de se alcançar o silêncio absoluto desde que entrou numa câmara à prova de som e sem nenhuma superfície reflexiva, chamada câmara anecoica, na universidade de Harvard. Naquela experiência, achando que encontraria o nada, ele relatou que ouvia dois sons persistentes: um agudo e um grave. Explicaram a ele que o agudo era o seu sistema nervoso, e o grave era a pulsação de seu sangue. 4'33", portanto, é na verdade uma incorporação dos elementos exteriores que fazem parte de cada ocasião específica em que é tocada. Nos ouvintes, por sua vez, podemos imaginar que acontece um movimento de levarem sua consciência a explorar seus arredores, nutrindo uma percepção crescente do tempo e espaço em que se encontram. A intenção do compositor em suas obras musicais, para além de 4'33", era que os sons seguissem um ao outro numa sequência livre, não-artística, sem uma "cola" harmônica. As obras eram estruturadas puramente como duração entre eventos, o que significa que havia durações entre eventos dentro de uma mesma obra e, entre uma obra e a seguinte, a demarcação era simplesmente a existência de uma duração maior. O silêncio, portanto, é o próprio elemento constituinte que permite a uma obra se reconhecer enquanto tal.
O que isso nos diz sobre Cage é que ele tinha perfeita compreensão do fato de que o tempo tem densidade. Como desenvolvi no texto 7, as coisas do mundo têm uma espessura, e essa é mais uma manifestação. Era isso que me prendia à aula de yoga do Gilberto e não a outras: um vídeo que respeitava a tangibilidade dos detalhes que o compunham, um ritmo que não se impunha ao desenvolver natural dos fenômenos que aconteciam ali, um tratamento de produção que não tentava colocar filtros entre nós e essa experiência. A física já provou que o espaço-tempo se comporta como um tecido e John Cage se torna, então, praticamente um fenomenólogo ao deixar que esses relevos existam. Suas obras não eram minimalistas - apesar de usarem silêncios, ele sequer foi simpático ao minimalismo quando este surgiu. Cabe lembrar, a minimização é meramente o lado inverso da maximização, e ambas são subordinadas ao domínio otimizador. O minimalismo supõe um rigor que busca o isolamento, mas Cage não era econômico em suas composições porque não só aceitava os detalhes, que são inevitáveis, mas direcionava o palco para eles, numa intimação a colaborar. Esse mesmo respeito - ou antes, no meu caso, até uma fixação - pela densidade intrínseca do espaço e do tempo, portanto, é o que me ajuda a entender o motivo de eu nunca ter ficado confortável ao acelerar áudios do zap. Os intervalos irregulares de cada prosódia, a espessura da voz e o peso dos elementos sonoros que aparecem no entorno conferem a cada experiência de fala uma singularidade que é simplesmente violento transgredir. Nos tempos atuais de aulas em vídeo, imagino alunos chegando perto de uma prova, com tempo limitado e bibliografia em acúmulo, e concluo que deve ser este o verdadeiro remorso da procrastinação: a necessidade de acelerar, rompendo o fluxo das coisas, e a consequente perda da chance de se relacionar com o objeto enquanto experiência vivida, restando a condensação de conteúdo, sem nenhuma folga ou contemplação. Situação que acontece com diversas outras pessoas, pasmem, não por necessidade acadêmica, mas por escolha pessoal, seja na seleção de vídeos de yoga para assistir, formas de atravessar um sinal ou músicas para escutar.








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