Pitacos sobre "performance", e mais: um especialista em composição clássica explica ao MARJ a canalhice das obras do artista alemão
É sempre desagradável sermos lembrados da nossa limitação biológica. Não há nada mais desolador, num arranjo social em que esculpimos boa parte de nosso comportamento público ao molde do ideal de um eu futuro, do que perceber impossível de ser alcançada essa forma final. Todo um castelo de cartas, minuciosamente colocadas em seu devido lugar, comicamente derrubado por um simples sopro que desdenha de poses e certezas. "Você não é isso tudo", ele parece dizer. Tal desmoronamento eu tive quando, concentrado em uma demanda do trabalho, entregue à escuta passiva de faixas que a reprodução automática do player de música me sugeria, me peguei chorando ao som de Cornfield Chase, do Hans Zimmer (a "música do Interestelar"). Causa, não correlação. Um choro causado exclusivamente por Cornfield Chase, do Hans Zimmer. Que desconcertante.
Tenho uma dose de convicção bem grande de que os ditos guilty pleasures, na realidade, não envolvem culpa. Eu, pelo menos, costumo caminhar até pelo extremo oposto em matéria de ceder aos prazeres, e acredito que leitores do blog também terão uma relação com a culpa cristã que não seja inteiramente mal resolvida. "Dar-se permissão", portanto, ou então guardar um segredo consigo mesmo sobre algum gosto, não é o problema. O desconforto com o gosto não vem de algum defeito inerente ao objeto mas, antes, de um terceiro, que, se não existisse, manteria a relação com o objeto imaculada. Esse terceiro é o ideal de si (o ego, diria o budismo). Não é novidade: o estágio atual do capitalismo é um de consumismo de subjetividades, aquela coisa toda¹. Os "produtos" vendidos e massificados são ideais de si e estilos de vida - notem as hordas de publicitários que dizem consumir música ou consumir mídia ou consumir arte. O guilty pleasure nada mais é do que a queda de algumas das mais apelativas dentre essas subjetividades vendidas. Como toda perda, exige um luto próprio, e o luto não é um processo indolor. Por isso a saia justa colocada por Hans Zimmer incomoda tanto: por mais que seja impossível ver quem realmente se é, cada uma dessas pequenas revelações descortina um pequeno pedaço adicional, e então se tem que fazer as pazes com esse pedaço, traga ele o que trouxer. Frequentemente é algo desagradável de admitir.
Na música, as duas principais manifestações de quedas de ideal costumam ser uma negação do próprio período formativo (um desejo retroativo de que o "letramento musical" tivesse começado mais cedo, que os gostos pessoais não tivessem sido moldados por tal e tal gênero, mas por outros), ou uma luta contra algumas limitações da própria biologia. A primeira alternativa não resolve o caso específico - quem gosta de uma peça de Hans Zimmer não necessariamente tem música instrumental como parte relevante de seu repertório, logo não se trata de uma revolta com todo o tempo gasto com aquele tipo de música e que culminou nesse gosto em particular (até existe um elemento de gostos moldados, mas voltaremos nisso mais à frente). O fator decisivo, de longe, é a perda da onipotência: a dificuldade de aceitar a divisão entre eu e mundo, um corpo encerrado em si mesmo, delimitado por contornos. Por mais que os fenomenólogos já tenham mostrado parte do caminho para extrapolar os limites do corpo e se lançar em direção ao mundo, a angústia cartesiana - desenvolvida no texto 5 - ainda parece se mostrar presente quando um intelecto que tem desejos de infinitude é confrontado com o fato de ser um primata um pouco mais evoluído, o DNA de uma banana só um pouco mais complexo, ou, como diz a frase, um pepino com ansiedade. Nessas horas, vem uma consciência humilhante de quão hackeáveis somos por cientistas que sejam suficientemente dedicados a identificar nossos padrões e explorar essas descobertas.
Essa manipulação acontece há muito tempo, é claro, e no início talvez não fosse perversa. Muito do desenvolvimento das teorias estéticas veio da documentação de obras calibradas por tentativa e erro, desde apresentações ao vivo que eram aperfeiçoadas a partir das reações do público e depois registradas por meio da escrita musical, até as peças gregas de drama e comédia em torno das quais se estruturaram por escrito as teorias da narrativa. Chegou-se às "grandes fórmulas" do Ocidente, e todos sabem que elas são amplamente apropriadas por Hollywood, pela indústria da música, e por onde quer que exista dinheiro. Uma vez que capitalismo é basicamente a exploração de características da natureza e de barreiras de entrada, no nosso caso os produtores encontram a maior propensão natural possível ao triunfo dessas tentativas: um público "consumidor" que, dotado de um corpo, submete esses produtos da indústria a um filtro orgânico. Alguém toca uma sequência de notas na escala pentatônica e você sente prazer, um roteiro apresenta um Chamado À Aventura seguido de uma Provação Suprema que culmina na Ressurreição (a dita Jornada do Herói) e jatos de serotonina jorram generosamente pelas suas vias internas, dopando como um dardo tranquilizante, heroína direto nas veias. A coisa funciona, o que se pode fazer?
Seria muito fácil que este texto dissesse “Hans Zimmer é o Christopher Nolan da música”. Vou até me poupar disso, porque o histórico extenso de colaboração dos dois já torna a associação imediata o suficiente. Fato é: se Hollywood é a capital das obras formulaicas, Zimmer é o ditador supremo. Hoje, no blog Música Ambiente RJ, ele será desmascarado. Eu tinha um caminho para fazer isso. É o mais intuitivo, com argumentos menos técnicos, mas o mais verdadeiro. É o caminho que foca no aspecto místico - por isso mesmo a explicação não é longa, mas algo como uma realidade que se descortina, que depende de alguma compreensão além do dito. Na sua essência, Hans Zimmer é um show de "candlelights", um Coco Bambu. Não preciso avançar muito além, acho, porque seria pouco frutífero. Mas posso tentar trazer alguma materialidade a isso, associando essa vertente - digamos, a vertente mística - do feitiço de Zimmer ao seu timbre. Esse, evidentemente, afeta sensibilidades em processo já um pouco avançado de atrofia. Mas não quero justificar tudo pela metafísica e não dizer mais nada. Pelo compromisso com o jornalismo e com o conhecimento objetivável, busquei ajuda para explicar a segunda vertente de Zimmer - a da teoria musical. Agora conseguiremos descrever os mecanismos do compositor alemão com lastro na realidade material. Mais do que uma "cafonice" abstrata, passamos a falar de clichês, partindo de elementos muito mais concretos na análise.
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Para a engenhosa tarefa, convidei Philippe Meyohas, compositor e pesquisador em musicologia histórica. Mestre pelo PPGM/UNIRIO e doutorando na área de Documentação e História da Música, foi indicado em 2024 ao 21° Prêmio Rádio MEC pela faixa A Arte do Retorno, III. Tem um disco, Em Claustro, Em Tormenta (2021), publicado pelo A Casa Discos, além de dois EPs. Já fez trilhas sonoras e teve músicas suas licenciadas para filmes, em especial o longa-metragem Fogaréu (2022, dir. Flávia Neves). Você pode segui-lo no Instagram em @philippemeyohas. "Algo como um misto entre Philip Glass e Coldplay", ele começa a descrever Hans Zimmer. Começamos pelo lado místico, mas ele logo passa a preferir a abordagem da teoria musical. "Timbre é algo um pouco mais difícil de julgar, porque é muito pessoal", embora pontue que as escolhas de timbre e mixagem de Zimmer estejam entre as que mais contribuem a esse resultado final mais palatável a um número maior de pessoas: "Alguns efeitos específicos, em especial de reverb e edição, certamente colaboram. Em momentos mais dramáticos você frequentemente vai ter uma orquestra de cordas tocando três acordes, por exemplo. Mas acima de tudo o Hans Zimmer, como produto comercial, 'funciona'. Não dizendo de maneira pejorativa, mas é preciso considerar a expectativa de público. É preciso considerar, também, a função da música dentro do filme, que é de ser praticamente um ator. Nos filmes, o trabalho do trilheiro é feito mais em proximidade com o montador do que com o diretor, tanto que é comum que cenas sejam montadas a partir da música - essa é a chamada música incidental. É muito diferente escutar uma obra musical que tenha o seu próprio discurso artístico e uma que esteja em função de um outro discurso. Essa, a incidental, talvez soe descritiva demais. Isso nem seria algo tão negativo por si só, mas se torna um problema ainda maior quando, como no caso específico do Hans Zimmer, ela é descritiva a partir de signos excessivamente consagrados, de clichês que circulam desde a ópera barroca. O que mais me vêm a mente são as trilhas de Purcell, um compositor inglês do fim do século XVII".
Pelo lado da teoria musical, Philippe aponta certa pobreza na obra do compositor alemão: "A música de Hans Zimmer é uma música claramente motívica. Um motivo é uma pequena sequência de alturas, com uma determinada duração, e é basicamente entendido como uma ideia melódica. Desde antes do Renascimento, na polifonia flamenga, os compositores faziam arranjos corais para a música litúrgica católica. Cada ofício da liturgia tinha um canto específico prescrito. O que esses compositores faziam, para criar uma unidade estética na obra, era usar um motivo desse canto original e desenvolvê-lo ao longo da obra. Isso era feito a partir de variações da sequência de notas primordial: inversão, transposição, expansão ou diminuição, retrogradação, apropriação do ritmo do motivo. Esse era o contraponto imitativo, mas a ideia de desenvolvimento motívico pode se aplicar a variações de uma ideia do próprio autor, evidentemente. A grande referência em contraponto é Bach. A Arte da Fuga é o maior exemplo de desenvolvimento motívico, feita inteiramente na exploração de uma mesma frase. Um contraponto bem feito faz derivações de diversas maneiras, a ponto de você deixar de reconhecer com clareza que ele continua ali. A questão com o Zimmer é que, em vez de desenvolver o motivo, ele repete. Até pode haver algo de variação, mas o que ele faz, para manter o interesse do público, é basicamente rearranjar. Tocar com outros instrumentos, variar o timbre, a textura (no sentido de harmonia), as escolhas de mixagem."
Mas o que faz, então, Hans Zimmer "funcionar"? Por que Time e Cornfield Chase são música de fundo de 95% dos vídeos motivacionais que têm imagens de boxeadores suando, discursos lidos em spoken-word com a prosódia evangélica que acompanha o exato ritmo dos momentos dramáticos da música? Por que eu, cobaia involuntária dos experimentos de laboratório dos grandes estúdios, caio no truque? "Bom, primeiro de tudo, porque você é literalmente conduzido a isso. Muita gente esquece que a teoria musical é arte no sentido de artesania mesmo, de técnica. É uma das formas de arte que mais costuma ser discriminada como uma questão de 'feeling', de 'sentir a vibe', mas dentre as artes a música é a que foi mais teorizada justamente com a finalidade técnica. E, bom, tem aquela história de que o clichê é clichê por algum motivo. Nos primórdios do contraponto, e depois da harmonia, que é um prosseguimento, a ideia dos compositores e tratadistas sempre foi fazer algo objetivamente belo. Na época de Palestrina (mestre de capela do Vaticano que se tornou referência na época da Contrarreforma), a música sacra tinha que ser muito estável, agradável, um milhão de coisas. Houve uma normatização. E esse "belo universal", por incrível que pareça, tem um certo fundamento acústico, como os princípios de consonância e dissonância. É claro que ainda há arbitrariedades, e com outras contingências históricas poderíamos ter um outro tipo de música predominante na teoria musical europeia. Mas a música em geral que se baseia nesses princípios acústicos, não à toa, emociona. Por isso é engraçado quando alguém que estudou profundamente composição tonal e compôs algo dentro do seu domínio é tratado como gênio. Não, essa pessoa apenas maneja um sistema que estava totalmente pré-estabelecido, que tinha conscientemente uma causa e efeito. O Hans Zimmer, por exemplo, às vezes usa a escala do lídio, que é um modo eclesiástico consagrado. Sem falar nas técnicas de mixagem, que vão fazer algo comovente e agradável, além de escolhas de orquestração. Ou seja, é tudo muito bem pensado por muitas pessoas."
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Resolvida a estética, podemos tentar esboçar uma ética. De que maneira me relaciono com as composições de Hans Zimmer daqui para a frente? De um lado eu posso "bancar o desejo", como hoje se diz. Fechar as portas completamente a qualquer relação complexa com o prazer, afinal somos um povo emancipado e não há espaço para a culpa. Aquilo de que eu gosto, então, fica automaticamente definido como algo "bom". É claro que a proposta soa sedutora, mas para além do linguajar publicitário, a ideia já faz pouco sentido por si só. Não deveria ser complicado conciliar as afirmações de que eu gostei de um objeto e esse objeto, tanto por critérios que costumam embasar uma análise estética mais robusta como por ser simplesmente genérico e formulaico, talvez não tenha alto valor. A pergunta a ser feita talvez seja mais da ordem prática: vale a pena gastar o tempo escutando Hans Zimmer? A música, felizmente, é uma arte generosa quanto a isso. Se não considerarmos o disco como a menor unidade musical, qualquer dessas faixas avulsas de Zimmer que ornam vídeos motivacionais pode ser ouvida sem gerar um grande prejuízo de tempo. Compare a duração pela qual o intelecto fica investido nesses três ou quatro minutos com a duração inteira de um filme do Nolan, por exemplo. Não é uma questão de aceitar que a arte esteja permanentemente na prateleira do prazer e conforto, recusando sua importante função de transformar o ouvinte e a coletividade para melhor, mas o ser humano é naturalmente instável e comporta diferentes estados de ânimo. É muito mais fácil imaginar que esses momentos de oscilação durem o tempo de uma faixa do que se sustentem pelas duas horas de um longa-metragem mais insípido.
Mas a pergunta real, maior do que essa, talvez seja: agora que eu já chorei vendo esse cara, o que é que eu faço com isso? Eu ainda sou uma pessoa dotada de valor próprio, digna de carinho, de amar e ser amada? Eu mesmo não tive uma figura para me dizer estas palavras de afirmação de que eu precisava depois de ouvir Cornfield Chase, então vou me encarregar desse papel para você, leitor, que talvez esteja passando pela mesma coisa. Você tem valor. Você ainda é digno de amar e ser amado. Você foi vítima de manipulação emocional deste compositor alemão. Você não tem culpa. Isso não diz sobre seu caráter, diz sobre um reflexo corporal. Como quem vomita no sofá de um amigo. Você não odeia seu amigo, você precisou vomitar ali porque tinha uma necessidade fisiológica e não conseguiu chegar ao banheiro. Não foi uma decisão do seu intelecto. Você chorou escutando Hans Zimmer, e você vomitou no sofá do seu amigo. Não tem problema. Não tem problema.
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Mesmo bem resolvido internamente, resta decidir se o mundo externo saberá disso. Posso vestir de novo aquela fantasia que me valorizava tão bem, aquela pose e refino crítico que eu tanto admirava em mim, e guardar segredo. A separação entre eu público e eu privado sempre existiu - embora tenha se acelerado no fim do século XVIII com a consolidação do lar burguês -, mas o impulso de dividir as personas atinge seu ápice hoje, justamente nos arredores de 2025, quando "performance" ganhou o prêmio Música Ambiente RJ de Palavra Do Ano. Gostaria muito de evitar tal palavra nesse texto, mas a epidemia está em máximas históricas. Don DeLillo pode nos ajudar a digerir tudo isso (tradução da Companhia das Letras):
"Alguns dias depois, Murray me perguntou a respeito de uma atração turística conhecida como o celeiro mais fotografado dos Estados Unidos. Pegamos o carro e rodamos trinta e cinco quilômetros, até os arredores de Farmington. Vimos campos e macieiras. Cercas brancas riscavam a campina ondulada. Então começaram a aparecer os cartazes. O CELEIRO MAIS FOTOGRAFADO DOS ESTADOS UNIDOS. Contamos cinco cartazes até chegarmos ao local. Havia quarenta carros e um ônibus de turismo no estacionamento improvisado. Seguimos uma picada em direção a um lugar um pouco mais alto, reservado para observadores e fotógrafos. Todas as pessoas, ali, tinham máquinas fotográficas; algumas traziam tripés, teleobjetivas, jogos de filtros. Havia uma cabine na qual um homem vendia cartões-postais e diapositivos — fotos do celeiro tiradas de lugar alto. Ficamos perto de um arvoredo observando os fotógrafos. Murray permaneceu calado por muito tempo, de vez em quando rabiscando anotações num caderninho.
— Ninguém vê o celeiro — disse ele, por fim.
Seguiu-se um longo silêncio.
— Depois que a pessoa vê os cartazes sobre o celeiro, não consegue mais ver o celeiro.
Calou-se mais uma vez. Pessoas com máquinas fotográficas iam embora, sendo imediatamente substituídas por outras.
— Não estamos aqui para captar uma imagem, e sim para manter uma imagem. Cada foto reforça a aura. Dá pra você sentir, Jack? Um acúmulo de energias sem nome.
Houve um silêncio prolongado. O homem na cabine vendia cartões-postais e diapositivos.
— Ficar aqui é uma espécie de entrega espiritual. Só vemos o que os outros veem. Os milhares de pessoas que já estiveram aqui, os milhares que hão de vir. Aceitamos fazer parte de uma percepção coletiva. Isto literalmente impregna nossa visão. De certo modo, uma experiência religiosa, como toda atividade turística.
Outro silêncio.
— Eles estão tirando fotos de tirar fotos — disse ele."
David Foster Wallace, comentando o trecho, acrescenta: "não só as pessoas estão observando um celeiro cuja única reivindicação à fama é ser um objeto de observação, como o estudioso em cultura pop Murray está observando pessoas observarem um celeiro, e seu amigo Jack está observando Murray observar a observação, e nós leitores estamos obviamente observando o narrador Jack observar Murray observando, etc (...). Ao se manter em silêncio e não participar da farsa, Jack diagnostica com eloquência a exata doença da qual ele, Murray, observadores de celeiro e leitores todos sofrem".
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(Uma saída)
O problema que se alastrou, me parece, é um excesso de antropologia. Podemos pensar nas causas: Reels, Tiktok, um humor crescentemente centrado em estereótipos. Um aumento no tempo que se passa pensando na imagem de si em relação a terceiros: um pensamento sempre relacional, socialmente situado. Com a proliferação de "conteúdos", ironicamente a substância dentro desses invólucros diminuiu, e mais do que qualquer coisa a função das redes sociais é fática. "Gente olhando gente", disse o "carioca da chuva" num vídeo recente sobre o carnaval do Rio de Janeiro (injustamente). A antropologia se tornou uma área transversal que agora sufoca o debate sobre todas as outras: pouco se fala hoje de cinema, literatura, música etc. Quase toda conversa é na verdade sobre quem é você a partir de seus gostos no cinema, na literatura, na música. Obcecado pela linguagem, pela autoconsciência, o debate virtual só menciona estereótipos. É um tipo de humor muito fácil de ser feito, note-se, porque é puramente descritivo: realmente, o homem de Laranjeiras é assim, a mulher da Barra da Tijuca é assado; parabéns. A única coisa que diferencia entre si os vídeos desse gênero é uma variação mínima no estilo do humor, que reposiciona a sátira em algum lugar do espectro caricatura - pintura realista. Mas sempre sendo, no mínimo, uma caricatura, e no máximo uma pintura realista, nada nunca além disso, nada nunca ousando sonhar em ser algo mais rico do que isso. Superegos coletivos num tempo em que já devíamos ter reduzido o tamanho dos superegos, mas eles apenas continuaram existindo ali no canto, na condição de se disfarçarem de piadas sobre modos de se colocar no mundo. A saída, além de evidentemente fazer pouco caso desse tipo de discurso e "conteúdo" na internet, envolve aumentar o volume de debate sobre objetos reais - voltar a discutir arte, não "estilo de vida". Nunca sairemos disso enquanto não fizermos o esforço de olhar para as coisas e não para quem está olhando as coisas.
A "ética da comoção" no caso específico de avaliar Hans Zimmer se dá, como este texto com algum insucesso tentou fazer, desviando o olhar do público que o escuta, dos signos sociais que ele carrega. Entendendo um mínimo sobre suas composições, entramos em posição de falar sobre a música, não sobre o malefício social causado por A Origem, Interestelar e outros filmes que usam suas trilhas. Retornei ao nosso entrevistado pedindo sugestões de compositores contemporâneos ainda dentro dos timbres mais melosos para dias em que tenhamos as tais oscilações de humor, mas num conjunto de artistas cujas composições ao menos tragam algum tipo de frescor: "Dentro de uma perspectiva analítica e histórica, acaba sendo difícil defender que algo de interessante esteja sendo feito fora do sistema pós-tonal, que é esse desenvolvimento depois do dodecafonismo de sistemas composicionais que não sejam baseados em escala e em acordes baseados em terças". Mas, cansado das acusações de que o blog é excessivamente historicista, insisti. "Bom, embora não sejam exatamente pós-tonais, tem a Hania Rani, que tem bons timbres, e acabou de fazer Valor Sentimental. Gosto muito das coisas que a Kali Malone faz, também". Você pode igualmente, claro, escutar a discografia do próprio Philippe. Ou em última análise, se quiser, ninguém o impede: pegue o final do seu domingo para escutar um Hans Zimmer enquanto degusta um sorvete de pistache. Se as propriedades do fruto pistache têm um bom encaixe com suas papilas gustativas, essa é, até onde eu sei, a única coisa que importa.
¹ Lipovetsky, principalmente







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