terça-feira, 9 de dezembro de 2025

#15 - Festival Novas Frequências 2025: andar pela paisagem, na direção da música

Acompanhei Kara-Lis Coverdale, Sarah Davachi e as intervenções sonoras no Parque Lage

Quando me vi atrasado para a performance de Chico Correa no Parque Lage, por ter feito um rápido desvio para usar o banheiro e comprar uma coca-cola na máquina de vendas, a escolha óbvia para encontrar o Lago dos Patos seria consultar o mapa do parque, disponível em placas espalhadas por pontos diversos no local. Já haviam tocado Luciana Rizzo e a dupla Violeta García & Hora Lunga. Chico Dub, o diretor geral e curador, anunciou que da Escola de Artes Visuais nós nos deslocaríamos para o lago, e o grupo praticamente todo rumou em conjunto para o destino. Mas quando, disperso do público, eu estava prestes a buscar as coordenadas, percebi que conseguia ouvir barulhos densos vindos de longe, frequências sendo emitidas que pareciam mais altas quanto mais eu me movia em direção ao som. Eu não me lembrava do Parque Lage ser tão extenso, não a ponto de precisar ter várias vezes o pensamento: "nossa, ainda tem mais pra andar". Mas mesmo distante, mesmo com uma escadaria longa e algumas mudanças de direção complexas para percorrer, em momento algum me perdi, tamanha a clareza dos sons que vinham do lago. O festival sabe, desde 2011, que curadoria é exatamente isso: ir até a música.

É inebriante lembrar que Tim Hecker, em 2013, Laraaji (coautor de Ambient 3 com Brian Eno), em 2014, e Xiu Xiu, em 2016, já passaram pelo Novas Frequências. O garimpo historicamente admirável do festival significa hoje que são coisas incompatíveis estar por dentro dos acontecimentos mais interessantes da fronteira da música experimental e não acompanhar, ao menos de longe, a programação anual do evento. Outros nomes consolidados do underground já trazidos pelo festival foram em 2012 um Cadu Tenório em início de carreira, em 2013 Gimu, veterano do dark ambient, e Babe, Terror, mais reconhecido no exterior do que no próprio país. O drone de Oren Ambarchi (já celebrado por Phil Elverum) e as colagens sonoras de Mbé também já estiveram presentes. Espalhados por outros anos, Negro Leo, Carla Boregas, Maurício Takara, Mondrongo, Flávia Goa, Verónica Cerrotta, Taticocteau, as músicas geográficas e fantasmagóricas de Fordmastiff, Fantasma do Cerrado e Atletas, e o noise-fenomenológico de Henrique Iwao e J-P Caron. Interseções com cenas adjacentes, como o hip-hop de sonoridade mais exploratória (Crizin da ZO, Novíssimo Edgar, Tantão) e a eletrônica mais dançante (Valesuchi como um bom exemplo recente) também sempre marcam presença nas edições. Em comum, todos têm uma atitude de curiosidade pela música, o que resulta num trato meticuloso com o som e garante o festival como uma jornada de estímulo dos sentidos e do intelecto, para quem gosta de separar os dois.

Na última sexta-feira, no teatro Solar de Botafogo, apresentou-se a canadense Kara-Lis Coverdale. Com trabalhos de muito sucesso na década passada, retornou neste ano após longo hiato com o lançamento de três bons álbuns, se reafirmando como um dos acontecimentos mais animadores na música ambiente mundial de hoje. A apresentação se dividiu em dois momentos: o primeiro com Kara-Lis de frente para o público, sentada diante de uma mesa com seu equipamento eletrônico cuja base era um laptop, o segundo com ela voltada para um piano, após um giro de praticamente noventa graus. A escolha de set para a primeira parte consistiu numa combinação dos álbuns From Where You Came, de 2025, e Aftertouches, de 2015. Chamou a atenção, desde o começo, como a canadense trata o DJ-ing como uma atividade artesanal. Os pés mexiam inquietos, a coluna acompanhava para cima e para baixo o movimento dos braços, quase numa dança. As mãos manipulavam o equipamento num gestual enfático, consciente do elemento tátil envolvido, como as de um padeiro. Mesmo sentada, tocava com o corpo todo. Coverdale introduziu a noite com a envolvente "Flickers in the Air of Night", seguindo para "Touch me & die". Ao final desta percebi como ela consegue, apenas com o digital, produzir sons coloridos que constroem praticamente uma fauna, e já poucas músicas à frente me lembrei da complexidade que ela carrega consigo. 

Quando, no meio de "Problem of No Name", a melodia tranquilizante foi invadida por uma dissonância, seguida de um trecho de graves arrebatadores e o sample de uma voz quase angelical, só para algumas músicas depois voltar um trecho dissonante muito mais longo, que se estendeu por cinco minutos assustadores sem qualquer resolução melódica, comecei a ter pistas do dado biográfico que descobriria depois: Kara-Lis tem histórico de organista em diversas igrejas do Canadá desde os 13 anos de idade, inclusive como ocupação principal. Isso ajuda a explicar como, antes mesmo de sua troca para o piano, os sons já haviam passado a ter um tom imponente, sombrio, como o que reverberaria numa catedral. Ela preparava uma transição, com uma atmosfera mais para o drone: tratava-se de "X 4Ewi", do disco Aftertouches. Os pés deixaram de se mexer, as notas graves eram cada vez mais espaçadas e os samples de voz feminina assombravam. A primeira parte se encerrou, ao fim dessa música, com o palco encoberto por fumaça que saía do fundo da sala, afirmando a ambientação espiritualizada. O segundo momento da apresentação, no piano, teve uma mudança na iluminação, agora com um feixe único de luz amarela se abrindo sobre ela. Dali para frente, tocou melodias que continuaram o tema sombrio, que somente do meio para o final viram entrar riffs mais quentes e esperançosos, numa espécie de resolução dessa segunda parte da peça. Com formação de pianista clássica, Kara-Lis Coverdale é indiscutivelmente muito boa no instrumento, e seu domínio da técnica, aliado à instigante ambientação, atraía a atenção de todos na sala. Só pareceu, na comparação entre as duas metades do show, que quando ela usa a sonoridade eletrônica seu som é mais único, isto é, seu diferencial artístico é maior ao explorar esse tipo de som do que entre outros pianistas. Mas a dualidade da apresentação valeu, sem dúvidas, para revelar a característica de Kara-Lis que mais ainda é singular: esse certo barroquismo entre o clássico e o futurista; temas sombrios e otimistas se intercalando com charme; um piano antigo e o processamento que flerta com o mais avançado que há na produção musical.


O Novas Frequências me faz pensar na paisagem. Não só a paisagem sonora, como se diz, mas a paisagem literal. Primeiro por causa da relação do festival com o espaço - a cada ano a cidade é ocupada em diversas localidades pelo som. Como diz o site, já passou por "salas de concerto, instituições de arte, espaços públicos e locais inusitados — como igrejas, galpões, escolas, praias e cachoeiras". Mas a paisagem se faz presente sobretudo porque em toda edição há uma boa cota de músicas geomorfológicas. Sarah Davachi sucedeu Kara-Lis Coverdale no Solar de Botafogo e tocou seu drone minimalista. A peça era muito próxima do estático. Repetia praticamente o mesmo trecho ao infinito e, quando se fala em uma construção lenta, esse caso é bem próximo dos limites. O que percebi foi que o desenvolvimento dessa música, ao longo de sua duração, é o mesmo que de uma paisagem, isto é, ambos sofrem transformações exatamente da mesma natureza. Todo drone, por essência, já depende do estático em alguma medida, mas ainda há o transporte do ouvinte de um lugar para outro, apenas mais devagar que o habitual. O que a peça tocada por Davachi traz de interessante é que a repetição do mesmo tema em loop, além de prolongar a duração de cada pulso como já é típico, reforça a estase também ao garantir que dois pulsos consecutivos sejam quase indistinguíveis. Como um corpo geológico exposto às intempéries, aquele tema principal vai se degradando, erodindo - nisso lembrei de Basinski, em especial seu Disintegration Loops. Com muito esforço, conseguimos prestar atenção e perceber, na obra de Sarah Davachi, sutis diferenças entre uma repetição e a seguinte, tais como o pedal gerando uma duração ligeiramente alterada ou o volume de algum elemento timidamente mais alto do que antes. Uma paisagem, para ter suas transformações percebidas, também não encontra muita serventia numa observação minuto a minuto, de forma contínua. Em vez disso, é necessário comparar a fotografia de dois momentos distintos, distantes no tempo. É assim que fazemos para perceber, com mais facilidade, que a música chegou a um lugar diferente de onde estava cinco minutos antes, com diferenças mais nítidas.

Não só a música em Sarah Davachi chega lentamente a um lugar novo, como também o ouvinte. A repetição busca esgotar o tema por exaustão, mas com o objetivo de sublimar algum estado antigo e quem sabe gerar um sentimento novo. Com o padrão em loop servindo como uma âncora, você é convidado a flanar no pensamento, sabendo que tem um lugar seguro para onde voltar. Nisso me lembrei de uma pequena epifania que tive há menos de um ano, provavelmente por pura ignorância minha, porque talvez seja um pensamento amplamente entendido como óbvio. Trata-se daquele aforismo clássico "um homem não entra duas vezes no mesmo rio". Existem dois personagens nessa história: o homem e o rio. A vida inteira entendi a frase como uma constatação sobre o fluxo do rio: o ponto de vista do homem, fixado, que vê a corrente passar por seus pés, e evidentemente as águas são sempre outras. Mas o homem não entra no mesmo rio, também, porque foi transformado pela passagem do tempo. Ainda que a água fosse igual, ele próprio não é nunca mais o mesmo. E o público, no Solar de Botafogo, visivelmente se deixava modificar pela experiência que Sarah propunha. Alguns ao meu redor de olhos fechados, em postura meditativa, exploravam paisagens às quais eu não tinha acesso. No palco, a abordagem de Sarah Davachi era oposta à de Kara-Lis Coverdale, tão estática quanto a música. Sua quase imobilidade me fazia esquecer, muito frequentemente, que ela estava ali. Se uma apresentação ao vivo envolve em alguma medida a performance corporal, a artista reduziu esse elemento ao estático, o que combinou muito bem com a música e, em última análise, com a experiência meditativa que era possível extrair daqueles momentos.

A paisagem no Novas Frequências é alterada não só por causa da dispersão dos shows pela cidade, mas pela própria transformação que se promove nesses lugares escolhidos. Além da invasão de ondas sonoras, que fisicamente altera o espaço, há também as mudanças no campo visual: o público, o palco e mais o que vier ao caso. Sábado, no Parque Lage, algumas apresentações foram especialmente reveladoras disso. As duas que aconteceram perto do lago - Concepción Huerta e Chico Correa - foram acompanhadas por um ruído de fundo, bem discreto, que como a música do set era incomum para a paisagem local. Examinando os arredores para achar a origem do ruído, fui me afastando da mesa de som até encontrar distante, na grama, um gerador de energia relativamente grande, bem industrial, amarelo, que alimentava a mesa do set. A música ambiente, como o gênero que melhor aceita as colaborações do entorno, foi enriquecida por essa interação. Tal qual seria impossível uma exibição musical depurada dos sons de natureza que a cercam, o gerador também fazia parte do cenário e tudo isso compunha o que era agora o ambiente, os sons habituais da natureza tendo ganhado nova companhia. Musicalmente, Concepción Huerta processava fitas cassete e produzia gradualmente um clima perturbador, como a trilha de um filme de suspense. Um som mais esparso do que os que haviam tocado antes naquele dia, com notas mais prolongadas. Essa atmosfera, um tanto quanto hauntológica, se manteve durante a maior parte do set até que a artista mexicana, em certo momento, introduziu sons de sintetizadores mais aquecidos, numa paleta sônica que produzia conforto. O interessante set terminou com esse arco, nos deixando depois com a natureza. O paraibano Chico Correa, por sua vez, combinou samples de cantos tradicionais nordestinos com os seus recursos eletrônicos. Brincando com a frequência das ondas sonoras pelos botões da controladora, introduzia a essas tradições elementos de noise e estranheza tecnológica - podia perfeitamente figurar na compilação resenhada pelo blog no texto 7, Sismografias de Vizinhanças. De camisa do Corisco, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, ele mostrou, de forma parecida com a de Kara-Lis Coverdale, como é possível fundir o velho e o novo num anacronismo tão poético.


Em torno do chafariz, esperávamos sentados pela performance de Rosa Noviello e Lara Dâmaso. Começou na escadaria: de pé, Rosa tocava a guitarra, processada para dar mais densidade e um tom sombrio aos acordes. Produzia um som imponente, que reverberava firme no cenário. Lara, enquanto isso, dançava letárgica, entregue. A combinação de som e dança transmitia um estado de pura angústia. Aos poucos, desceram da escada e ocuparam a paisagem: o chafariz, com seu gramado normalmente vazio, normalmente ocupado de modo transitório por visitantes andando, era agora preenchido pelo público sentado, e Lara Dâmaso passava no meio das pessoas, rodeando o chafariz, redirecionando os olhares e a forma de olhar o local. Nossa atenção se voltava para onde ela estivesse, com sua caracterização espectral: vestindo quase um lençol, transparente, andava sonâmbula e descalça, sua presença flutuando. Essa foi a segunda ocupação da paisagem do chafariz, porque antes o chileno Nico Espinoza havia proposto ainda uma segunda forma alternativa de se relacionar com aquele lugar. De sua mesa cheia de fios coloridos como os que filmes de ficção científica dos anos 80 usariam para especular sobre a parafernália tecnológica futura, pediu que nos virássemos de costas para a mesa onde tocaria o set. Sua ideia, acatada pelo público sentado, era que experimentássemos a apresentação com vista para o Cristo Redentor, sobre o morro do Corcovado. Mais do que qualquer outro artista no festival, a intenção era realmente modificar a nossa interação com a paisagem. O dia ensolarado, azul, e palmeiras ao céu contrastavam com as melodias graves no sintetizador e um glitch agressivo aparecendo de forma intermitente, unindo-se a um ruído quase branco, zumbidos elétricos emitidos por Nico na mesa de som. Tudo isso formava, no trópico, uma cena distópica. Sob aquele céu parecíamos jovens hippies em algum livro de Don Delillo ou Thomas Pynchon - especialmente diante do magnetismo apocalíptico que dominava o local. Sons dissonantes entrecortavam a apresentação, lembrando sirenes, campainhas e alarmes de incêndio.

As outras apresentações que completaram (que na verdade foram as primeiras) o circuito no Parque Lage foram as de Luciana Rizzo e da dupla Violeta García & Hora Lunga, ambas num ambiente fechado - a EAV, escola de artes visuais do parque. Violeta é argentina, e tocou sentada o violoncelo, enquanto o suíço Hora Lunga, de pé, controlava os eletrônicos, que produziam um sound collage a partir de samples cotidianos, reveladores do caos da cidade. A dupla alternou entre melodias harmoniosas - o violoncelo sendo usado da forma mais tradicional, e a mesa criando sonoridades confortáveis - e momentos de desordem. Naqueles momentos mais confortáveis, havia crescendos e construções mais ornamentais, mas os momentos mais interessantes foram durante os trechos mais sombrios. O violoncelo, em vez de ser um instrumento, passava a estar a serviço da colagem sonora, apenas mais um recurso para produzir os efeitos que se gostaria, que foram diversos. Tornou-se, assim, um corpo multifunção, rompendo com a ontologia consagrada do objeto. No que foi talvez o ápice da peça, Violeta apenas girava e batia o violoncelo para produzir ruídos específicos, que complementavam muito bem a paisagem mais salpicada que os eletrônicos queriam construir nos momentos mais de dark ambient. Essa foi a tônica da apresentação, a de uma química em que cada membro da dupla fazia sempre algo que comementava bem a outra parte. Já Luciana Rizzo, argentina, estava sentada diante de dois tambores de bateria conectados por fios a um pedal. Por padrão, era emitido um sinal metálico e penetrante, e a artista experimentou com variações desse som ao manipular uma chave de afinação em diversos pontos da bateria. Depois, percorreu com objetos diversos na superfície dos tambores, de baquetas de bateria às de xilofone, criando ressonância. O resultado foi, em alguns momentos, incrivelmente melódico, e em todos os momentos uma proposta intrigante. 

O site do festival diz: "O Novas Frequências chega a esta edição sem patrocínio. Toda a operação está sendo viabilizada graças ao apoio das instituições parceiras que recebem o festival e à colaboração generosa dos artistas participantes, que aceitaram cachês menores do que o habitual. Nesse contexto, o envolvimento do público — por meio da compra de ingressos e do consumo durante o evento — torna-se essencial para garantir a continuidade e a vitalidade do projeto." O motivo de existência do blog é, em parte, o mesmo do festival. Voltamos nossa atenção para os artistas que colocam o som em primeiro lugar, tratando o experimental não como fim, não como invólucro publicitário para vender o gênero ou o estilo de vida em torno do gênero, mas como o único meio possível, movido pela curiosidade, de tratar a matéria artística, na tentativa de criar alguma coisa que seja de verdade. Para a fiel comunidade leitora do Música Ambiente RJ que reside em São Paulo, ainda é possível presenciar a maior parte das atrações do festival que ocorrerão na cidade até o próximo dia 13. A programação tem algumas novidades em relação à do Rio, como a presença de Edgar e os Fita. Para todos os detalhes, recomendo conferir o site: https://www.novasfrequencias.com/2025/pt/programacao/.

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