Não é possível neste caso escrever uma crítica de arte sem recorrer à metafísica; em certo momento, ela imitou um pinguim
Foi publicado em 2015 num blog dedicado a histórias da cidade de Piracuí-SP, "Homem Benigno", um texto seminal para o desenvolvimento do gênero BLOG. Já se estava em avançado crepúsculo da nossa modalidade literária, e Marcelo Daniel assinou o texto. Chamava-se Equivocou-se David Foster Wallace, ou Por Que Amo Cruzeiros. Os cruzeiros estão metidos em briga de cachorro grande. Por um lado o ensaio original de DFW, A supposedly fun thing I'll never do again, usando seu humorzinho gauche para se colocar como estrangeiro e criticar os absurdos que viu as famílias praticarem em sete dias. Por outro, o texto de Marcelo Daniel, resposta enfática que narra uma experiência oposta. A respeito desse tema, recomenda-se a leitura de ambos, que são primorosos, para formação de opinião própria.
Mas a menção aos cruzeiros no texto de hoje não é mais que uma homenagem ao blog de Piracuí. Remoendo o show de Ichiko Aoba na última terça feira, dia 2, no bairro da Pompeia em São Paulo (não pude estar na semana anterior, no Teatro Liberdade), lembrei do Homem Benigno ao perceber que Walter Benjamin se equivocou. O alemão, como bom materialista, se opunha ao elogio de obras de arte por vias que não sejam imanentes à realidade - adjetivos como "divino" ou "transcendental". Refletindo sobre a pouca credibilidade do cinema como forma de arte "alta" e legítima na época do surgimento do cinema falado, ele sugeriu os esforços de parte da crítica em reverter esse quadro, podemos extrapolar, como apelativos e artificiais: "É revelador como o esforço de conferir ao cinema a dignidade da 'arte' obriga esses teóricos, com uma inexcedível brutalidade, a introduzir na obra elementos vinculados ao culto. E, no entanto, na época em que foram publicadas essas especulações, já existiam obras como a opinião pública ou 'Em busca do ouro', o que não impediu Abel Gance de falar de uma escrita sagrada e Séverin-Mars falar do cinema como quem fala das figuras de Fra Angelico. É típico que ainda hoje autores especialmente reacionários busquem na mesma direção o significado do filme e o vejam, senão na esfera do sagrado, pelo menos na do sobrenatural.”
O blog Música Ambiente RJ não é um blog reacionário, evidentemente. E o argumento de Benjamin, aliás, é muito pertinente. Deveríamos, sim, deixar de atrelar o valor de uma obra a um suposto caráter de intervenção divina. Deveríamos conseguir nos comover por uma obra em função de elementos pertencentes ao material, e celebrar a nossa realidade, não uma outra. Deveríamos sofisticar a linguagem da crítica e derrubar de um status superior os termos que remetem ao sagrado, justamente por não haver mais um espaço superior onde ele caiba. Por essa ótica, o próprio David Foster Wallace teria se equivocado por uma segunda vez - quando escreveu Roger Federer As Religious Experience, novamente um ensaio transformador. Mas fui assistir a jogos de Federer depois da leitura e, embora o texto seja ótimo e o tenista jogue com muita elegância, não há nada de religioso ali, o que reafirma a linguagem transcendental como uma hipérbole comum, apenas. Toda essa resistência contra ela é legítima, e faz todo o sentido. Mas infelizmente, e apesar de todas as nossas melhores tentativas, há um caso em que a realidade se impõe, um caso que, por uma questão cronológica, Benjamin não teve culpa de não conhecer: a cantora, compositora e instrumentista Ichiko Aoba.
Imagem publicada no célebre texto do blog Homem Benigno
Se pedirmos que pessoas sem contato prévio com a obra de Ichiko a escutem e tentem descrever o acontecido, surgirão como lugares-comuns exatamente aqueles termos dos quais tentávamos fugir: "sublime", "divino", "celestial". Mas as justificativas que essas pessoas darão não são as mesmas que fazem este texto concordar com elas. Não é porque a japonesa incorpora quase perfeitamente o ideal de "pureza" e evita qualquer elemento de sensualidade mais corpórea em sua identidade visual que ela se equipara a uma experiência divina - nesse caso é que realmente o velho Benjamin teria razão em nos chamar de reacionários. Também não é por sua personalidade doce, tímida, aparentemente ingênua, que esconde um senso de humor apaixonante. Não é por sua perfeição técnica como violonista, de cuja dimensão só me dei conta ao vivo, que em nada deve aos maiores do mundo. Não é por um viés ocidental que tende a fetichizar a cultura oriental como se Ichiko escondesse alguma sabedoria antiga xintoísta. Tampouco a intenção é resgatar ideais neoclássicos, associando sua voz angelical a uma beleza grega perene. Os motivos que fazem sua obra transcender são outros.
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Com o silêncio de quem participa de um ritual religioso, o público presencia a entrada de Ichiko Aoba no palco. Alguns boquiabertos, todos hipnotizados. Cada movimento da cantora era escrutinado pelo público em seus mínimos detalhes, na intenção de no pior dos casos registrar aqueles instantes na memória para sempre e, no melhor, absorver esses trejeitos e se tornar um pouco ela talvez. Como se o material, por ser a via de manifestação do que ela tem de essência, pudesse, ao ser muito bem observado, nos servir de passagem a essa própria essência. Ichiko conquista o ambiente mesmo sendo pequena e delicada, mesmo que sua voz sejam apenas sussurros, porque ela não domina pela expansividade, mas pelo espanto. Podemos identificar como presença o primeiro elemento que atribui a ela o status metafísico. Era esse espanto - o "temor" - que as religiões tradicionais usavam para descrever a postura habitual diante de um ser divino, não era? A reverência com que se entra num templo, a sensação da própria insignificância ao se sentir parte de um ritual, o deslumbramento de estar na presença de algum ser que não se entende muito bem o que é, mas que se sabe tratar de alguma força, um corpo celeste que guarda milhões de mistérios. A plateia estava enfeitiçada. Como um planeta, Ichiko Aoba atraía para si o peso de toda a sala, com sua gravidade própria.
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Luminescent Creatures, o álbum lançado este ano que dá nome à turnê, é uma espécie de expansão de Windswept Adan, de 2020, que terminava numa faixa com o exato nome do álbum de 2025. Adan foi concebido como trilha sonora para um filme imaginário, que Ichiko idealizou do zero. Reporta-se que suas letras, portanto, compõem essa espécie de disco conceitual, acompanhando o fio narrativo de uma menina com poderes proféticos que é exilada, por sua família, da ilha natal de Kirinaki para a ilha ficcional Adan, fugindo de um casamento entre linhagens de sangue diferentes para "preservar sua linhagem". Nessa ilha, a menina encontra uma rica diversidade de vida vegetal e animal. Seres exuberantes convivem com criaturas de uma espécie indefinida que em vez de se comunicarem por linguagem verbal o fazem por meio de conchas do mar. Esses habitantes do lugar paradisíaco recebem a garota com festa, mas morrem logo em seguida porque têm um ciclo de vida curto. Depois, ela mesma morre, reincarnando em várias formas de vida diferentes. Musicalmente, o álbum marca a "guinada ambiente" de Ichiko Aoba, em que migra de sua fase mais acústica, marcada pelo minimalismo de um violão, para uma música mais aberta e brilhante, que explora o espaço sonoro com sintetizadores e outras experimentações. Lendo em português um papel provavelmente fonetizado, Ichiko nos disse do palco que aquele dia, 2 de dezembro, era o aniversário de 5 anos do lançamento de Windswept Adan, e por isso teríamos muitas músicas dele.
Por ser a turnê de Luminescent Creatures, é claro que este também foi representativo no set. Um disco com sons ainda mais sutis e sedutores, mergulho completo na natureza mágica que começou a ser descoberta em Adan. Em entrevista à revista Tokion, Ichiko explicou as criaturas. Ela faz frequentes visitas às ilhas de Okinawa e do arquipélago Ryūkyū, onde mergulha sem equipamento: "Quando você mergulha, só consegue aguentar a duração de sua respiração, então a morte está bem na esquina. É uma experiência amedrontadora, mas ao mesmo tempo tão bonita. Às vezes sinto que estou diante da mais bela visão logo antes de morrer". Em volta dela, juntam-se seres bioluminescentes, como água-vivas e os plânctons, criaturas que, no processo evolutivo, em algum momento desenvolveram a capacidade de produzir a própria luz. Ela diz: "Bilhões de anos antes de baleias e humanos se desenvolverem, o primeiro plâncton deve ter se sentido assustado, mas feliz. Depois de descobrir a própria solidão, deve ter se iluminado para encontrar uma companhia. Eu quero carregar a força desse plâncton comigo e viver minha vida. Eu espero continuar dessa forma, mesmo depois que meu corpo físico se for".
Escutar a obra de Ichiko Aoba é testemunhar a magia no mundo. Vemos a existência com os olhos dela, de quem conhece seres mitológicos e paraísos suspensos no tempo. É esse elemento, a mágica, o segundo componente da transcendência de sua música. Não por ficarmos sabendo do conteúdo da letra em japonês, que nos diz muito pouco, mas porque cada detalhe dessa mágica permeia os cantos de sua obra. É isso que fará Ichiko, um dia, ser eterna: continuar como música depois que seu corpo físico se for.
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Ichiko Aoba entrou vinte e nove minutos depois do horário. A espera e a configuração do palco sugeriam a preparação para algum tipo de ritual. O setting era minimalista, posicionado no centro do palco. Um tapete retangular em cima do qual estavam todos os objetos. Uma mesinha que sustentava um teclado pequeno e fino, uma luminária aconchegante de luz amarela e uma caneca rústica com algo que a artista bebericou algumas vezes durante a apresentação. Uma minúscula árvore de decoração, duas caixas de som, um suporte para cifras e o microfone, à frente de um banquinho onde ela viria a se sentar e não levantaria até a última música. Na ponta do tapete oposta à mesa, outra luminária de luz amarela, esta no chão, e atrás dela o objeto mais alto da estrutura: algum tipo de totem, do qual conheço bem pouco, que ajudou a construir essa atmosfera mística. Durante todo o tempo de atraso, víamos os objetos estáticos e o banquinho vazio, enquanto o sistema de som tocava música ambiente japonesa. A primeira de todas tinha o lamento de uma imponente voz feminina, certamente algum canto tradicional, e as seguintes se restringiram a melodias delicadas de algum piano, que incluíam a lenda Ryuichi Sakamoto, com quem ela já colaborou. Aguardávamos uma aparição divina.
Quando ela chegou e se sentou, foi envolvida pela luz dourada e teve início o nosso estado de arrebatamento. Curiosamente ela quis, em vários momentos da apresentação, quebrar o clima de seriedade fazendo pequenas piadinhas, como se soubesse que estávamos colocando nela a aura de divindade. Fazia sons bobos ocasionalmente entre músicas, brincava com a plateia, como quando tocou o celular de alguém e ela continuou a melodia no violão, dizia "olá" em melodia cantada, nos ensinou a dizer "alô" no telefone em japonês (moshi moshi). Em certo momento, assoviou enquanto afinava o violão, ao que alguém assoviou de volta, e então ela assoviou várias vezes e outros na plateia também o fizeram, sequência que terminou quando ela lançou o braço para esses diversos pontos na plateia e fingiu que eram insetos que ela catava e colocava na boca.
Além das músicas de Windswept Adan e Luminescent Creatures, Ichiko nos presentou com muitas de sua fase acústica. A belíssima テリフリアメ (Terifuri Ame), do álbum q p, em que a cantora atinge um agudo atordoante, abriu o show. A delicada hello, que fez para a trilha sonora do filme Amiko, também foi tocada. O mais impressionante era constatar pela primeira vez a exata extensão da destreza de sua voz e de seu uso do violão. Foram diversos momentos de incredulidade. Em pirsomnia, música que eu julgava impossível de ser cantada ao vivo, me recusei a crer que se tratava dela quando a identifiquei. Ichiko pincelou a voz tal qual nos momentos iniciais da faixa gravada em estúdio. Tocou 機械仕掛乃宇宙 (Kikai Jikake no Uchuu), do clássico álbum 0, sua música mais tecnicamente refinada, que devido à complexidade de seus arranjos, que ainda se prolongam por doze minutos, também julgava ser impossível de se reproduzir ao vivo. Ela o fez com maestria. Arrancou aplausos de meio minuto mesmo que não fosse a última do show. Para a canção final, já no bis, ela se levantou e cantou fora do microfone, só com seu violão, vulnerável, de pé. O som de sua voz ecoando baixo no enorme teatro, mas ainda com muita clareza, porque ninguém ousaria emitir barulho de pensamento. A beleza arrasadora daqueles instantes me fez lembrar dos pensamentos que tive ao refletir sobre a presença de Ichiko. Finalmente entendo as religiões que não permitem pronunciar o nome de suas divindades ou que obrigam os praticantes a cobrir os olhos no templo. O sentimento que eu tive, e certamente era compartilhado, foi de que parecia obsceno que nós estivéssemos vendo aquilo. Parecia errado, não podíamos estar vendo, não devíamos ter acesso àquela visão.
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O cineasta Paul Schrader, ele próprio alguém que tentou em sua filmografia capturar a experiência do divino, investiga, em Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson and Dreyer, o que há de comum entre grandes filmes que conseguiram atingir o feito. O livro chega a conclusões específicas da linguagem do cinema, a partir do que ele delineia como "estilo transcendental", observado nos autores citados no título. O que não é específico do cinema, porém, pode ser extrapolado a outras artes: "O estilo transcendental busca maximizar o mistério da existência; ele renuncia a todas as interpretações convencionais da realidade: realismo, naturalismo, psicologismo, romantismo, expressionismo, impressionismo e, finalmente, racionalismo. Para o artista transcendental o racionalismo é só uma das muitas abordagens para a vida, não um imperativo".
As temáticas escolhidas por Ichiko Aoba, menos situadas histórica e socialmente, pouco serviriam para uma análise material da nossa época. Sem deixar entrever qualquer fresta de fatores autobiográficos, seus últimos trabalhos focados em mistérios da natureza e seres mitológicos não colocam sua obra, no entanto, como ahistórica ou sem valor. Pelo contrário, diria Schrader: o foco em retratar elementos da existência humana comuns entre épocas a aproxima do estilo transcendental e, em minha análise, contribui para conferir a qualidade atemporal. Vale notar que a opção por uma temática da natureza chega a ser banal na música ambiente: não a desqualificando de qualquer debate, mas apenas indicando que tais obras pertencem a um outro gênero e precisam ser analisadas de maneiras particulares, a partir dos elementos que contêm.
Conclui Schrader: "Pistas ou guias de estudo que ajudam o espectador a 'entender' o evento: enredo, atuação, caracterização, trabalho de câmera, diálogo, edição. Em filmes de estilo transcendental esses elementos são, em termos populares, 'não-expressivos' (isto é, não são expressivos da cultura ou personalidade); eles são reduzidos à estase ("stasis"). O estilo transcendental estiliza a realidade ao eliminar, ou quase eliminar, esses elementos que são primariamente expressivos da experiência humana, assim destituindo as interpretações convencionais da realidade de seu poder e relevância".
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Um último elemento que atribui a Ichiko Aoba o caráter metafísico é seu poder de criação de vida. Em Sagu Palm's Song, a estrutura minimalista do palco fez com que ela mesma tivesse que fazer sons de pássaros (nem me recordava de existirem na faixa original). Em 惑星の泪 (Wakusei No Namida), que fecha o disco Luminescent Creatures, os efeitos sonoros de ventania no início da música foram feitos na hora por Ichiko, soprando ao microfone. Em outras músicas do mesmo álbum a iluminação replicou, nas paredes do teatro, os efeitos visuais da capa, de quem entrevê borrões de luz de dentro da água. Me senti como um plâncton primitivo, como Ichiko em seus mergulhos diante de uma visão divina antes de morrer - mas minha visão divina era ela. Molhado em lágrimas, eu estava conectado com esse entorno pela mesma água. Eu também senti que não estaria ruim se aquela fosse a última coisa que eu via. A cantora se transmutou em toda a natureza; ela foi pássaro, vento e ser bioluminescente.
Por mais que eu tenha evitado ao máximo receber informações sobre o que Ichiko vinha tocando na turnê, já sabia pelo Youtube, há vários meses, de uma nova canção, não lançada, que ela tocou em shows esse ano. Trata-se de "Sayonara Penguin", escrita em homenagem a um amigo imaginário pinguim de quem ela se despede. É uma balada curta e doce no violão. Minha expectativa de que essa música fizesse parte do set no último dia 2 não se cumpriu, mas vi o vídeo da semana anterior, na Liberdade, quando a canção foi tocada. Não há nada mais característico de Ichiko Aoba do que isso: à encantadora melodia se segue no fim uma brincadeira, que faz parte da música. A artista altera seu tom de voz para um extremo agudo, produzindo um hilário guincho animalesco - presumivelmente de um pinguim - que se prolonga e acompanha a melodia da canção, fazendo a plateia cair em risadas. Este é o mundo de Ichiko: um de seres que brilham, natureza mágica e amigos imaginários.
Como qualquer pessoa, eu já tive alguns amigos imaginários. O mais duradouro deles se chamava Pingo: que esse nome se pareça com o do Pingu, o pinguim, é uma fascinante coincidência. Mas Pingo era humano, e eu não me lembro de quase nada sobre ele. Lembro também de um esquimó imaginário, sem rosto e sem nome, mas provavelmente algum espelho meu, com a mesma idade. Eu sempre pensava nele ao mesmo tempo em que ele pensava em mim. Era essa a nossa conexão: o fato admirável de que um esquimozinho de um contexto cultural diferente, um lugar totalmente remoto, pensava lá do canto de seu iglu em mim, um garoto qualquer de cidade, e eu pensava nele, e ambos sabíamos disso. Desconfio que ele ainda hoje esteja lá para mim, embora eu não fale com ele há muito tempo, mas o Pingo eu devo ter visto alguma vez sem saber que era a última, a ponto de ter gradualmente esquecido tudo sobre ele dali para frente exceto que foi alguém de grande importância para mim. Assim é o fluxo das nossas vidas: nos despedimos de monstros e amigos imaginários e vamos conhecendo outros, num ciclo infinito. Os álbuns de Ichiko, que desde a fase folk me acompanham, testemunharam momentos que já nem me recordo quais foram, como toda música que já passou por nós. Mas entre mortes e renascimentos, e conhecer e se despedir de criaturas sem espécie num paraíso perdido, e conhecer e se despedir de seres luminescentes e depois de um pinguim, a certeza que tenho é de que eles ainda fazem parte de mim.




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